sábado, 15 de dezembro de 2012

This is the end



Conforme prometido - e quase não cumprido - este é o post de encerramento do blog. Afinal, não faz mais sentido Godoit in Detroy, se a Motor City já ficou para trás. Agora é Vila Pompeia, mano, subdistrito de Perdizes - um dos maiores bairros de São Paulo, segundo as incorporadoras imobiliárias, só perde para Saúde (que vai da Vila Mariana a Cubatão) e Morumbi (que já está chegando em Curitiba).


Washington, maio

Chegamos há 15 dias, e como já disse, amei e odiei tudo - ao mesmo tempo. Bem paulistano. Amei reencontrar meus pais, minha Nonna, meus primos e tias, ouvir música alta, todo mundo falando ao mesmo tempo, ganhar  e dar muitos abraços - e a possibilidade de encontrar mais gente querida nos dias que virão. Adorei também voltar a entender totalmente o idioma das ruas, com tantos sotaques e semblantes. Até na Santa Ifigênia já fui, atrás de um chip para transformar nosso GPS gringo em brazuca e me diverti com os vendedores chamando o pessoal na rua para comprar equipamentos piratas certificados. Só aqui.



New York, julho
Odiei o trânsito absurdo de dezembro, a falta de educação dos motoristas, o desrespeito às regras mais elementares de convivência, os preços de Beverly Hills para produtos que a gente sabe que custaram um décimo - no quesito roupas, posso falar, sou filha de costureira das boas - ou menos. Espero ansiosamente por janeiro, com as ruas um pouco mais desertas. Quem sabe vou conseguir chegar na hora em algum compromisso. Explico: quem me conhece sabe que sou muito chata com pontualidade, sofro fisicamente quando me atraso - e tenho instintos assassinos quando sou vítima de atrasildos. Pois é. Acostumada com a tranquilidade das ruas de Michigan, andei marcando várias coisas com intervalos razoáveis, mas não imaginei o quanto o trânsito toma da nossa vida aqui em São Paulo. E tem a chuva. E a enchente (aqui, sim, são os Grandes Lagos).


Chicago, julho, setembro, novembro
Teve dias em que desejei ardentemente tomar um avião de volta para Michigan. Ainda estou no processo de reassimilação, paciência. Afinal, São Paulo (e o Brasil, por extensão) é para os fortes. Mas acho que vou ficar por aqui, mesmo, também porque meu visto venceu, não há nenhuma possibilidade à vista para o Roberto voltar para a matriz (lá, estão matando cachorro a grito, imagina importar um brasileiro...), e tenho minha casa para olhar, como diria meu tio Adoniran.


Mackinac Island, outubro
Depois do périplo pelos ares americanos - saímos de Detroit para San Francisco, rodamos a Califórnia, voltamos para SF, embarcamos para Miami, dirigimos até Orlando, voltamos para Miami e de lá para Detroit - nos despedimos de nossa vida michigander antes de encarar onze horas de voo até São Paulo. 


Detroit, setembro
Foi bem triste a partida. Ao mesmo tempo em que estávamos com saudade de tudo e todos, o coração doía ao pensar em deixar a terra que nos acolheu tão bem, a despeito de todos os problemas que eles têm - um massacre escolar por semana, aquele patriotismo meio idiota que produz guerras e veteranos mutilados e malucos, a extrema competitividade que os divide em estrelas e losers -, aprendemos muita coisa lá em cima.


Alpena, outubro

Além dos lugares incríveis que conhecemos - conseguimos visitar as maiores cidades norte-americanas, só faltou Boston e Seattle, mais o estado de Michigan de cabo a rabo  - pude desmistifcar muitas ideias que eu tinha dos nativos (e confirmar outras). Eles são, no geral, amáveis, dispostos a ajudar (claro que em restaurantes a gorjeta é um belo incentivo), solidários (não só quando acontecem tragédias ou furacões, mas com o vizinho, com o bairro, com a cidade decadente que é Detroit), focados, objetivos - e pontuais!


Disney, novembro
Também me surpreendeu a incrível capacidade de eles rirem de si mesmos e de não ter vergonha do ridículo, como nas festas medievais e mesmo nas ruas. Cada um se veste como quer, não tem essa nossa ditadura da gostozice (calça cintura baixa com salto e blusinha agarrada, viu, bem?). Uma autenticidade até meio caipira, mas legal.


San Francisco, novembro
Gostei deles. Só não dá muito certo falar sobre alguns assuntos - guerra, superioridade no cenário mundial, racismo (ficava um embaraço danado quando eu comentava que os negros e brancos não conviviam como a gente convive aqui no Brasil, apesar do nosso "racismo cordial") - que eles simplesmente não entendem. Melhor deixar pra lá.


Festival da Renascença, agosto
Foram sete meses muito ricos para todos nós. A Helena voltou falando inglês igual os nativinhos (presenciei uma conversa dela no avião com uma senhora americana no banco de trás, e me enchi de orgulho), e está mais focada, com expectativas lá em cima (outro efeito colateral positivo). O Roberto conheceu o american way of working in loco. Viu que o pessoal é tudo aquilo que elogiei aí em cima, mas na hora do trabalho, é trabalho. Procrastinação é uma palavra inexistente , mesmo porque eles não conseguiriam falar. Ah, e deu cinco horas, para casa! Cuidar da família, do jardim, dos cachorros, da vida.

Detroit Zoo, maio

E para mim... bom, descobri que meu inglês podia ser bom para falar com italiano, francês e alemão, mas com os nativos não funcionava. Os primeiros dias foram um apagão total. Eles não me entendiam e eu não os entendia. Pior, quando abria a boca, as palavras vinham em alemão - que, descobri, ainda não esqueci -, mas com muito esforço de minha parte (modéstia é meu segundo nome) e um professor limitado mas dedicado, que vinha todos os dias na minha casa às sete da manhã, saí de lá entendendo e sendo entendida por quase todo mundo - o sotaque é outra história. 

Charlevoix, agosto
Também consegui escrever uma matéria sobre o varejo de autopeças nos Estados Unidos, suas semelhanças e diferenças com o  Brasil. Entrevistei pessoas, visitei lojas, fiz pesquisas, redigi e entreguei, mais ou menos no prazo. Foi bom me sentir profissional, já que minhas perspectivas eram meio limitadas - motorista da família e housewife, função que, aliás, também desempenhei com louvor, auxiliada pelos fantásticos supermercados e sua incrível variedade e qualidade a preços módicos (não sei como eles estão tão gordos). Emagreci, coisa rara no país da banha e do açúcar, após entrar na seita dos Vigilantes do Peso - que, thank God, continuo seguindo no Brasil pela internet.


Orlando, novembro
Enfim, depois de quase um ano entre preparação, estadia e volta, estamos aqui. E o blog se despede. Na verdade, estou pensando em criar outro, já que tomei gosto pela coisa - que eu falo pelos cotovelos todo mundo sabe, mas escrever sobre mim e minha vida são outros quinhentos. Estou ainda pensando e estruturando, mas vai sair. No mais, quero agradecer meus parcos porém fiéis leitores, na maioria amigos e familiares que acompanharam esta nossa aventura em terras ianques, com comentários bacanas e motivadores. Valeu, pessoal. Até logo.



3 comentários:

  1. ameiiiii!!!!! Serio, escreve um livro!! Você escreve bem pra caramba!! :)

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  2. Nossa Pero de Vaz Caminha da viagem! Contou com incrivel sensibilidade tudo o que vimos juntos. Confesso que passei a gostar mais de alguns dos lugares e de algumas das situacoes somente depois de ler o blog. Ficou lindo!
    Beijos,
    Roberto

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  3. Meus dois lindos, tudo só valeu a pena graças a vocês.

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