Escrevi no último post que a Helena deveria ficar eternamente grata por eu levá-la à Disney antes de voltarmos para o Brasil. Pois é. Agora eu é que agradeço minha filha por ter sido a desculpa perfeita para eu me divertir como nunca aqui na terra da fantasia.
Vir para a Flórida foi o último tapa na cara que levei pelos anos que falei mal dos americanos - caipiras, arrogantes, imperialistas e tudo o que cartilha meiaoito ensinou, em meio à ditadura em que minha geração cresceu. Perfeitamente compreensível, mas a gente tem que viver um pouco na terra dos ianques para entender um pouco a cabeça deles, e, no final, a nossa também.
Mas, antes da Flórida, teve a Califórnia. Na semana passada encontrei as mais lindas paisagens que já vi na vida, na CA1, a estrada costeira entre San Francisco e Los Angeles. Passei por Big Sur, onde Jack Kerouac escreveu um livro homônimo - devidamente adquirido na livraria City Lights, de SF, a meca dos beatnicks, onde pude respirar o ar e pisar no chão onde meus heróis pisaram (além do Kerouac, Charles Burroughs, Laurence Ferlinghetti, Neal Cassady, Allen Ginsberg...). Até eu escreveria um livro lá, um paraíso com montanhas de um lado e um mar azul turquesa do outro, batendo em penhascos cinematográficos.
Passamos também por San Luis Obispo e Santa Barbara, duas cidades encantadoras, tão diferentes do lado de Michigan, com aquele ar latino, mas muito, muito limpo e arrumado. Suspirei de tristeza ao lembrar de minhas férias em Fortaleza, no começo do ano, e da sujeira, abandono e esculhambação que marcaram a viagem - para nunca mais voltar.
Falando em nunca mais, chegar em Los Angeles foi o anticlímax de toda a road trip. Apesar de ter ficado hospedada em um hotel que faz parte da Route 66 (a da música e de tantos filmes), achei a cidade detestável. Como já escrevi em outros posts, viajar por tantas cidades diferentes neste país tão multicultural me deixou mais sensível para encontrar (tentar, pelo menos) a tal da alma das cidades.
Até Chicago, que precisei ir de novo e de novo para descobrir a sua alma dava de mil em LA. Achei tudo muito falso, arrivista, todo mundo querendo ser o que não era, tão diferente do resto da Califórnia. Gente botocada, esticada, tingida, tentando esconder idade, o espetáculo deprimente do pessoal vestido de Jack Sparrow, Iron Man e Darth Vader, tirando fotos na Hollywood Boulevard e depois cobrando de forma agressiva, drogados e malucos por todas as ruas, a ostentação das casas em Hollwood Hills, Beverly Hills e outras Hills que escondem sabe lá que tipo de ser humano. Triste, muito triste, a cidade das aparências. Torci para chegar o dia de ir embora. Só me diverti mesmo na calçada da fama, ao ver os autógrafos de queridos meus como os Irmãos Marx, mas foi pouco.
A volta para San Francisco - de onde partimos para Miami - não foi tão espetacular, mas teve paisagens lindas, mesmo afastado da praia. Vi os famosos vinhedos da Califórnia, dormi mais uma noite em Monterey, terra do Steinbeck, e no dia seguinte me reencontrei com minha nova cidade favorita.
Aproveitamos o resto do dia - um sábado com um pouco de chuva, um pouco de sol - para terminar o roteiro mínimo, já que San Francisco merece muitas vindas.
Quase chorando, tomamos o avião para Miami, Flórida, para cumprir o roteiro "não basta ser pai de teen, tem que ir para a Disney". Dia inteiro voando, e eu já pensando nas roubadas que enfrentaria. Antes de ir para Orlando, ficamos um dia em Miami, e eu bem que achei legal. Fora a brasileirada barulhenta e mal-educada no hotel e pelas ruas, a cidade tem um clima ótimo - o meteorológico e o astral -, tem muita gente endinheirada (como eu disse, em Miami vive o pessoal que tem grana, em LA o pessoal que pensa que tem), uma arquitetura arte-decô bem preservada, uma avenida da praia cheia de bares e gente colorida e... a casa do Versace! Ela fica bem na muvuca da Ocean Drive e fiquei abismada com a morbidez dos turistas fazendo fotos em frente ao portão. Disgusting, diriam os gringos.
Ah, e em Miami tem os cubanos. Diferentes dos mexicanos, que são mais humildes, até subservientes, os cubanos são orgulhosos, andam de cabeça erguida, quase argentinos (com mais ginga). Fomos até Little Havana, onde fiz umas fotos bem legais, de lugares como El Pub, El Gato Tuerto e outros "Els" por lá.
Chegamos a Orlando, depois de quatro horas de estrada - estado com grana é outra coisa, as rodovias pareciam Autobahn alemãs. E eu ainda achando que iria odiar tudo. Que nada. Logo ao chegar ao Animal Kingdom, comecei a ficar emocionada. Logo pensei: ai, ai, ai. Encarei minha primeira montanha russa, bem café-com-leite - devidamente dopada com muitos Dramins - e me saí até que bem, mas amarelei na do Everest. Roberto e Helena saíram com as pernas bambas, mas não paravam de falar como foi sensacional. O parque é bem legal (eu, a ignorante, achava que tinha bichos mecânicos, mas era tudo de verdade), e me chamou a atenção a extrema organização, do estacionamento ao guichê de ingressos, nas filas que você nem percebe que está há meia hora (ah, e se está escrito que a espera é de trinta minutos, pode apostar que é mesmo), na simpatia e diponibilidade do pessoal. Sem contar a quantidade de aposentados que trabalham lá, em todos os lugares, não só para fazer figuração.
No mesmo dia, tive o nocaute, no Magic Kingdom. É o parque que tem o castelo da Cinderela (que eu jurei que jamais iria porque já fui ao original, na Alemanha), Mickey, Pateta, parade, Piratas do Caribe, carrossel do Dumbo... Nesse último eu entreguei os pontos. Virei criança de novo e lembrei do programa Disneylândia, que eu assistia todo sábado.
Ainda teve um show de fogos no bendito castelo, e eu chorei de novo, aos pés da estátua do Walt Disney. Ah, e claro que fiz uma foto com o Mickey.


Nesta semana ainda fomos ao Epcot Center (um museu de ciência em forma de parque, um pouco datado, mas fascinante), ao Hollywood Studios, onde recriaram alguns dos filmes mais bacanas da Disney, da Pixar e agora da Lucasfilm, como Star Wars (deu dor no coração de ver o Mickey Skywalker e a Minnie Princesa Leah, como fã dos Jedis que sou). Fake, mas legal. Também neste parque fui a uma montanha-russa que faz jus ao nome. A do Aerosmith, que é no escuro e com rock no último volume. Nem sei quantos loopings atravessei, mas gritei como mocinha de filme B de terror. E nem fiquei com vergonha na saída.
Fora dos parques, ainda deu tempo de ver um jogo da NBA, com o meu Detroit Pistons tomando uma lavada do Orlando Magic, em outra festa que eles também chamam de jogo de basquete.
Ainda fui ao um simulador de tornado (filme Twister, lembra?), antes de dar de cara com um show dos Blues Brothers (fakes, claro, mas parecidíssimos com o Dan Aykroid e o John Belushi), uma viagem alucinante na Krustyland, dos Simpsons, e ainda dei uns tiros nuns ETs no set de Men in Black. Como eu disse, saímos do lugar dos personagens bonzinhos (Disney) para o pessoal não tão bonzinho - e irônico, sarcástico, mal-humorado, mas irresistível.
Ainda volto para mais dois dias à Universal - amanhã ainda tem o parque do Harry Potter, montanha-russa do Hulk, torre do Homem-Aranha... Não vai ter Dramin que dê conta, Deus me ajude.
Daqui a uma semana o blog deixa de existir. Afinal, não faz sentido Godoit in Detroy quando estiver de volta a São Paulo. Mas, como peguei gosto pela coisa, provavelmente vou criar um outro. Com menos viagens para contar, com certeza (afinal, ainda tenho que pagar essas aqui), mas, quem sabe, em outras paragens. Mas, antes disso, vai ter um post de despedida desta América que tanto me surpreendeu - e me esbofeteou.







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