Chicago, again
Da roda gigante fomos ao motivo - ou desculpa - para a viagem: a Expo Chicago, uma mega exposição com o que há de mais moderno em arte e design no país (claro que eles falaram "no mundo", porque são quem são). Mesmo com algumas obras bem questionáveis - tem coisa que eu resisto a aceitar como arte -, o resultado foi ótimo, principalmente para a educação do olhar da Helena, que já está analisando obras como gente grande - e lembrar que quando chegamos ela não queria nem passar perto de um museu... Já valeu todo o passeio, mas ainda tinha mais.
Depois de maltratar de novo meu corpo com a apimentada comida americana - comida baiana virou macrobiótica, para mim agora - descobri a minha-nova-banda-favorita-de-toda-minha-vida. Neste mesmo fim de semana estava acontecendo um festival de world music na cidade. Como eu escrevi no último post, tudo que tem o nome fair, fest ou festival me dá arrepios, que é roubada na certa. Que nada. Pelo menos o show que vimos no píer. A banda chama-se Delhi2Dublin, e é a mais perfeita tradução de world music. Músicos indianos, um guitarrista - que tocava cítara! - coreano, uma violinista/cantora loira e uma mistura fantástica de ritmos indianos, árabes, música celta, rock, reggae, hip hop. Falando assim parece uma bagunça total, mas o resultado foi uma música contagiante, todo mundo foi dançar - aliás, adoro ver os americanos soltando o corpo sem nenhuma coordenação em qualquer tipo de show, eles são os maiores caras-de-pau do planeta. Tão legal quanto a música era ver a alegria com que os músicos tocavam. Já vi mil vídeos deles no Youtube, vou fazer campanha para o Sesc levá-los para o Brasil.
No dia seguinte, mais Chicago do alto. Fomos à Sears Tower - hoje chamada de Willis Tower, mas o nome não pegou - ver se era verdade que dava para ver quatro estados de lá de cima. O dia estava lindo, claro, e a visão foi estonteante - não literalmente, para minha alegria. O mais legal foi tirar foto na caixa de vidro que "sai" do prédio, e você fica flutuando a mais de cem andares de altura. As pernas tremem a princípio, depois não dá mais vontade de sair. Mas tinha que dar espaço para os demais turistas, fazer o quê, quem ficava mais de um minuto lá corria o risco de apanhar. Foi lindo ver a cidade do alto, nas quatro direções e os quatro estados... Bem, a gente sabia que de um lado fica Indiana, do outro Michigan, mais pra frente Wisconsin e Illinois era onde a gente estava, oras. Mas valeu - e como valeu - o passeio.
Ainda fomos a pé para a Buckingham Fountain, uma fonte inspirada no palácio de Versailles, mas, claro, gigantesca, com um jato d'água que acertava avião, com certeza. Mais uma caminhada e voltamos para o Millenium Park, onde ficam duas maravilhas de Chicago: a Crown Fountain, com rostos projetados como se estivessem espirrando água pela boca, e The Bean, o feijão, para mim uma das obras mais incríveis que uma cidade poderia ter. Fico imaginando uma igual no Ibirapuera ou no Villa-Lobos. Mais uma vez nos divertimos como numa casa de espelhos. Foram as duas exceções da viagem, já que tínhamos ido lá também na primeira vez.
Como já era quase hora de ir embora, dirigimos para o norte da cidade, em direção ao Lincoln Park, que também tinha ficado de fora da primeira vez. De novo, não deu para ver direito - tem até um zoológico lá dentro, dizem que é o Central Park de Chicago (a inveja mata). No entanto, a região do parque - onde nos perdemos tentando achar um Starbucks para um café pré-volta - me conquistou. Como o Roberto diz, estou sempre procurando a Vila Pompeia e a Vila Madalena nas cidades aonde vamos - aquela parte da cidade meio boêmia, com pessoal descolado, cheio de lojinhas e restaurantes de dono, uma coisa cada vez mais rara aqui em cima, só tem franquia e rede, argh! Em Washington foi Georgetown, em NY,o Village, até aqui em Birmingham é assim, só em Chicago eu não tinha encontrado da primeira vez. Talvez por isso eu tenha achado que a cidade não tinha alma.
Pois encontrei a alma de Chicago. Diferentemente da Downtown, linda, mas um tanto gélida - em todos os sentidos -, em Lincoln Park e Wrigleyville a alma da cidade estava na simpatia das moças do Starbucks - tão diferentes das colegas brasileiras -, do policial e da moradora desbocada batendo papo no café, dos prédios de tijolinho meio caídos, mas com personalidade... Pena que já eram quase cinco da tarde, e ainda tínhamos quatro horas de estrada pela frente.
Existem dois temas recorrentes no cinema americano: a redenção - normalmente do bad guy para herói - e a segunda chance. Este último eu resolvi adotar para a cidade de Chicago, que visitei há dois meses e, como escrevi aqui mesmo, não me empolgou muito, não, apesar do Aquário e do Instituto de Arte, sensacionais. Como as opções de viagens curtas - e legais, principalmente - estão se esgotando aqui neste Meio-Oeste de meu Deus, resolvemos tentar de novo a Cidade dos Ventos no último fim de semana.
E quanto vento. Bem na sexta-feira chegou uma frente fria daquelas, do Ártico (deixa as da Argentina no chinelo), e nos pegou totalmente desprevenidos. Fui com um casaco comprado na Renner para o frio do Brasil, que se revelou uma blusinha de renda para enfrentar o vento gelado de Illinois. Orelhada total, como se eu já não tivesse vivido nos Alpes. Enfim, depois de passar um frio danado, voltei para o hotel e encarnei uma cebola básica, com todas as blusas que tinha levado. Com a Helena não teve jeito - tivemos que comprar um casaco, antes que ela trouxesse uma pneumonia como souvenir de Chicago.
E quanto vento. Bem na sexta-feira chegou uma frente fria daquelas, do Ártico (deixa as da Argentina no chinelo), e nos pegou totalmente desprevenidos. Fui com um casaco comprado na Renner para o frio do Brasil, que se revelou uma blusinha de renda para enfrentar o vento gelado de Illinois. Orelhada total, como se eu já não tivesse vivido nos Alpes. Enfim, depois de passar um frio danado, voltei para o hotel e encarnei uma cebola básica, com todas as blusas que tinha levado. Com a Helena não teve jeito - tivemos que comprar um casaco, antes que ela trouxesse uma pneumonia como souvenir de Chicago.
Fora o frio - que tem lá seu charme - descobrimos uma nova cidade nesta segunda vez. Não que ela tenha mudado alguma coisa, mudamos nós. Para começar, de perspectiva. Primeiro: em vez de ficar num hotel perto da Greektown, longe do centro, ficamos na Michigan Avenue - conhecida como a 5th Avenue daqui - , numa pechincha inacreditável do site de viagens. É assim: você reserva o hotel no escuro, só sabendo a localização. Depois de pagar a reserva, você fica sabendo onde é. E o nosso foi, sem dúvida, o melhor daqui até agora, e melhor até do que alguns resorts metidos do Brasil.
Resolvido o hotel, meio caminho andado. Literalmente. Pudemos fazer quase tudo a pé e sem se cansar até morrer, como da primeira vez. A segunda mudança de perspectiva foi decidir que desta vez, em vez de olhar para cima, iríamos olhar para baixo. Já no sábado de manhã encarei meu medo de altura e de uma crise de labirintite e fui andar de roda gigante no Navy Pier - um lugar que eu só tinha visto do barco. E não é que nem fiquei com medo - só um pouquinho, vá - nem tonta - só o habitual. Mas foi muito divertido.
Da roda gigante fomos ao motivo - ou desculpa - para a viagem: a Expo Chicago, uma mega exposição com o que há de mais moderno em arte e design no país (claro que eles falaram "no mundo", porque são quem são). Mesmo com algumas obras bem questionáveis - tem coisa que eu resisto a aceitar como arte -, o resultado foi ótimo, principalmente para a educação do olhar da Helena, que já está analisando obras como gente grande - e lembrar que quando chegamos ela não queria nem passar perto de um museu... Já valeu todo o passeio, mas ainda tinha mais.
Depois de maltratar de novo meu corpo com a apimentada comida americana - comida baiana virou macrobiótica, para mim agora - descobri a minha-nova-banda-favorita-de-toda-minha-vida. Neste mesmo fim de semana estava acontecendo um festival de world music na cidade. Como eu escrevi no último post, tudo que tem o nome fair, fest ou festival me dá arrepios, que é roubada na certa. Que nada. Pelo menos o show que vimos no píer. A banda chama-se Delhi2Dublin, e é a mais perfeita tradução de world music. Músicos indianos, um guitarrista - que tocava cítara! - coreano, uma violinista/cantora loira e uma mistura fantástica de ritmos indianos, árabes, música celta, rock, reggae, hip hop. Falando assim parece uma bagunça total, mas o resultado foi uma música contagiante, todo mundo foi dançar - aliás, adoro ver os americanos soltando o corpo sem nenhuma coordenação em qualquer tipo de show, eles são os maiores caras-de-pau do planeta. Tão legal quanto a música era ver a alegria com que os músicos tocavam. Já vi mil vídeos deles no Youtube, vou fazer campanha para o Sesc levá-los para o Brasil.
No dia seguinte, mais Chicago do alto. Fomos à Sears Tower - hoje chamada de Willis Tower, mas o nome não pegou - ver se era verdade que dava para ver quatro estados de lá de cima. O dia estava lindo, claro, e a visão foi estonteante - não literalmente, para minha alegria. O mais legal foi tirar foto na caixa de vidro que "sai" do prédio, e você fica flutuando a mais de cem andares de altura. As pernas tremem a princípio, depois não dá mais vontade de sair. Mas tinha que dar espaço para os demais turistas, fazer o quê, quem ficava mais de um minuto lá corria o risco de apanhar. Foi lindo ver a cidade do alto, nas quatro direções e os quatro estados... Bem, a gente sabia que de um lado fica Indiana, do outro Michigan, mais pra frente Wisconsin e Illinois era onde a gente estava, oras. Mas valeu - e como valeu - o passeio.
Ainda fomos a pé para a Buckingham Fountain, uma fonte inspirada no palácio de Versailles, mas, claro, gigantesca, com um jato d'água que acertava avião, com certeza. Mais uma caminhada e voltamos para o Millenium Park, onde ficam duas maravilhas de Chicago: a Crown Fountain, com rostos projetados como se estivessem espirrando água pela boca, e The Bean, o feijão, para mim uma das obras mais incríveis que uma cidade poderia ter. Fico imaginando uma igual no Ibirapuera ou no Villa-Lobos. Mais uma vez nos divertimos como numa casa de espelhos. Foram as duas exceções da viagem, já que tínhamos ido lá também na primeira vez.
Como já era quase hora de ir embora, dirigimos para o norte da cidade, em direção ao Lincoln Park, que também tinha ficado de fora da primeira vez. De novo, não deu para ver direito - tem até um zoológico lá dentro, dizem que é o Central Park de Chicago (a inveja mata). No entanto, a região do parque - onde nos perdemos tentando achar um Starbucks para um café pré-volta - me conquistou. Como o Roberto diz, estou sempre procurando a Vila Pompeia e a Vila Madalena nas cidades aonde vamos - aquela parte da cidade meio boêmia, com pessoal descolado, cheio de lojinhas e restaurantes de dono, uma coisa cada vez mais rara aqui em cima, só tem franquia e rede, argh! Em Washington foi Georgetown, em NY,o Village, até aqui em Birmingham é assim, só em Chicago eu não tinha encontrado da primeira vez. Talvez por isso eu tenha achado que a cidade não tinha alma.
Pois encontrei a alma de Chicago. Diferentemente da Downtown, linda, mas um tanto gélida - em todos os sentidos -, em Lincoln Park e Wrigleyville a alma da cidade estava na simpatia das moças do Starbucks - tão diferentes das colegas brasileiras -, do policial e da moradora desbocada batendo papo no café, dos prédios de tijolinho meio caídos, mas com personalidade... Pena que já eram quase cinco da tarde, e ainda tínhamos quatro horas de estrada pela frente.
Assim, deixamos Chicago pela segunda vez. Não teria sido justa com a cidade - nem comigo - voltar para o Brasil com a sensação de ter faltado alguma coisa. Que bom seguir os instintos e tirar a cisma. Valeu, valeu, valeu. Tanto que, ao entrar na freeway, eu já estava planejando uma terceira chance à Windy City. Se der tempo, quem sabe.
Agora estamos em busca do outono. Pelas fotos e relatos, é a estação do ano mais linda, a das cores, como dizem. Até na previsão do tempo - eles adoram previsão do tempo e eu também já viciei - tem o "mapa das cores", com indicação de onde as árvores já começaram a ficar amarelas, vermelhas, laranja, antes de cair tudo e chegar o inverno inclemente. Aqui mesmo perto de casa já está um espetáculo, imagino mais para o norte, que tem túneis de árvores. Se São Pedro colaborar - o outono aqui é imprevisível - vamos rumo ao Ártico na semana que vem (mas sem sair de Michigan, veja bem). Depois eu conto.
12/09/2012 22:41 - Top Five Roubadas
Toda
semana eu me sento à frente do computador para contar um pouco da vida aqui
em Michigan. Tento contar um pouco do nosso dia a dia, para os leitores
para mim mesma. Assim vou pensando, refletindo e ruminando toda essa
experiência aqui, como eram minhas jurássicas cartas dos tempos de Áustria,
misturado com um diário/semanário.
Tem
semana que é moleza: uma viagem legal, um festival de jazz, um museu
escondido, uma paisagem nova espetacular... Noutras, como essa aqui, vou te
contar. Daí, pensando no que eu iria escrever, pensei em contar, desta vez,
não os passeios bacanas, mas as roubadas em que nos enfiamos regularmente,
sob pretexto de conhecer um pouco mais dos usos e costumes locais, e nos
divertir também, claro. Que aqui não é nenhuma Disneylândia nem Big Apple a
gente já sabia, mas, como bons brazucas, não desistimos nunca.
A
inspiração maior veio do programa do último fim de semana: um festival da
colheita da uva e venda de vinho em uma vinícola local. O pessoal aqui de
Michigan alardeia muito o vinho que produz, mas acho – por experiência
própria e dolorida – que está mais para São Roque do que Borgonha. Na dúvida,
tomo sempre um californiano (tem até do Coppola, que é um fortuna).
Mas,
com aquele meu dom natural de procurar programa de índio em qualquer lugar do
mundo, achei que o tal festival seria legal. O site era bacana, me lembrei do
filme Um Bom Ano, com o Russel Crowe, que vai para a França cuidar do
inventário do tio e se apaixona pela vinícola (ah, e pela Marion
Cotillard, que de bobo ele não tem nada). Como era na região de Ann Arbor –
que é linda – nos iludimos e fomos. Ao chegar, nada mais do que uma barraca
com uns gatos pingados em volta – ah, e os caras cobravam cinco dólares
por cabeça! Demos meia volta e fomos tomar um café no Starbucks de Ann Arbor,
vendo o pessoal voltar do jogo de futebol da universidade, bem legal. Longe,
muito longe da saída do Palestra, do Morumbi ou do Pacaembu. Eu bem
que queria ir ainda a uma festa indígena – literalmente – em outra cidade,
mas o Roberto e a Helena sabiamente me contiveram a tempo, para nosso bem.
Para
mim, esta é a primeira das top five. Não que elas tenham uma ordem, mas
como foi a mais recente, fica com o título.
A
segunda: museu do Thomas Edison , que nos enganou totalmente. Como eu já
contei em outro post, a cidade de Port Huron tem até estátua dele, que morou
lá uns anos. Então, no museu só tinha uns manequins de loja vestidos como a
família do Edison, mais uma coleção de garrafinhas quebradas, que teriam sido
usadas por ele. Tá bom. 50 dólares pelos três ingressos. Como a gente aprende
com tudo na vida, ficamos vacinados com museus específicos em cidades
pequenas. E tem museu de tudo por aqui, acredite. Sei que é uma forma de
arrecadar dinheiro para a cidade, de valorizar a história local e
tal, mas, sinceramente, vai tirar dinheiro de outro.
Terceira
roubada: parade em Frankenmuth. Viajamos uma hora e meia até a Little Bavária
da América para um festival (veja roubada a seguir sobre este assunto) alemão
e, ao chegar, nada de biergarten ou pessoal dançando e cantando na mesa.
A tal parade, então, foi decepcionante, não por causa dos veteranos e
das bandas locais (daquelas de high school) , que foram muito legais, mas o
que mais tinha era o seu Zé da loja de ferragens desfilando com sua picape,
assim como o pessoal da corretora de seguros, do posto de gasolina,
todo mundo fazendo sua propaganda. Sem contar as rainhas e princesas de tudo,
cada drag...Pfui, Teufel, como diriam os bávaros de verdade. Pelo menos foi de
graça.
Quarta
roubada: tudo o que tiver o nome de festival ou fair disso ou daquilo, com
exceção honrosa do festival da Renascença e o Detroit Jazz Festival, com
certeza. Não é que sejam ruins, o pessoal até curte, mas aquela mistura de
música alta, nem sempre a melhor, fumaça com cheiro de gordura empesteando o
ar e elevando a temperatura a níveis saáricos, mais um artesanato meia-boca
que alguns chamam de arte, ah, não dá. Já fomos nuns dez, e nenhum – fora a
Renascença e o Jazz – valeu a visita.
Quinta
e última – não que seja melhor ou pior: garage sale. Podem falar que é
beneficente, que é ecologicamente correto, o escambau, mas achei uma bela
roubada, também. Para tentar tirar a má-impressão, fui a outras, e nada
mudou. Prefiro o centro de caridade do tipo André Luiz ou Exército da
Salvação que achei numa cidade aqui perto, com coisas bem legais e preços
incríveis. Pena que eu não posso carregar muita coisa na volta, senão
redecorava minha casa com as coisas de lá. Sem contar que a gente sabe que
vai para alguém que precisa mesmo.
Como
ainda vamos ficar uns tempos por aqui, esta lista pode aumentar. É bom dizer,
sempre, que não tenho a intenção de ridicularizar nem menosprezar o pessoal
daqui que - de novo! - tem sido sensacional conosco – hoje fui à
reunião de pais e mestres da escola e voltei encantada com a qualidade do
ensino público daqui. O negócio é que eles marketeiam muito bem o que têm, e
a gente, acostumado a se autodepreciar, acha que tudo vai ser o máximo. E nem
sempre é. O bom é que a gente aprende. Se bem que quem ia em festa do PCB e
perseguia o RPM nos anos 80 já deveria ter aprendido...
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06/09/2012
23:45 - publicado por Sandra Godoy
Finalmente,
Detroit.
Desde
que chegamos por aqui - e lá se vão mais de quatro meses - estávamos devendo
uma visita à capital michigander, Detroit. The D, como dizem os descolados.
The Motor City, sede das três grandes montadoras (GM, Ford e Chrysler) que
vai fundir se uma delas falir (ou continuar mandando produzir longe daqui).
Bem que tentamos encarar a cidade algumas vezes, mas como sempre o fazíamos
em domingos à tarde, o cenário era de arrepiar. O pessoal diz que Gotham City
é New York, mas acho que é aqui. Gótica, escura, assustadora. Para piorar,
sai fumaça dos bueiros, igual filme noir. O fato é que sempre tive uma
péssima impressão da cidade - decadente, abandonada, violenta - mas tudo
mudou neste fim de semana, sem que ela deixasse de ser tudo isso aí.
A
música fez o milagre. Mesmo antes de vir, em nossas pesquisas sobre este
lugar conhecido como Meio-Oeste, mas que na verdade fica quase no leste - vai
entender... - e da cidade do automóvel e da Motown, vimos que tinha o
Detroit Jazz Fest, que acontece durante três dias no feriado do Labor Day,
dia do trabalho.
A
gente já tinha visto umas matérias na semana passada, mais na Fox local, que
tem uma bancada totalmente negra no primeiro telejornal. Pela animação do
apresentador, já dava para imaginar o que viria. Mais pesquisa - somos bem
alemãezinhos para essas coisas de passeio - e não conseguíamos achar o lugar
onde comprava os ingressos. Tolinhos. O festival era totalmente de graça, na
faixa.
Chegamos
no sábado à tarde para tentar ver o Wynton Marsalis, que passei a admirar
depois que vi uma série de programas sobre o curso que ele dá no Lincoln
Center, em NY, ensinando jazz para crianças. Ele é um cara muito chique,
parece saído de uma big band dos anos 40, e pertence à nobreza do jazz - o
pai é Ellis Marsalis, e os irmãos Branford, Delfeayo e Jason, todos feras.
Para não enrolar mais: vi o show dele de graça! Se tivéssemos chegado um
pouco mais cedo, teria dado para ver de pertinho. Eu nem acreditei.
Agora,
tão legal quanto o show era o público. O centro da cidade estava lotadaço,
como reveillon na Paulista, mas,em vez de sertanejo, axé e pagode (perdão,
patrícios), tinha o melhor do jazz, em quatro palcos, além de uma "tenda
de discussão", onde o pessoal debatia (!). Adorei. Durante a semana
também teve cursos, master classes e várias atividades para mostrar à moçada
que música não é só hip-hop e gangsta rap (sorry, natives). Voltando ao
público: foi a primeira vez, desde que cheguei, que vi uma interação tão
grande entre brancos e negros nesta cidade. Como eu já postei, o negócio aqui
é meio estranho - o tal do "iguais, mas separados" que
define a relação interracial, inclusive entre os locais e os estrangeiros,
árabes, indianos, latinos. Juntos e separados.
Mas
não no Jazz Fest. Incrível - pode parecer ingênuo ou lugar-comum - como a
música tem essa capacidade de unir as pessoas. É coisa divina. Vi muitos
casais multirraciais - além de brancos e negros, negros e orientais, negros e
indianos, latinos e não-latinos -, vi muitos amigos se abraçando (quem disse
que gringo não se manifesta fisicamente? Balela, eles adoram se abraçar e
beijar, viu?), vi senhores negros que se fossem brasileiros, seriam da Velha
Guarda da Portela. E vi cada figura... Gente vestida para festa, homens de
terno, chapéu, colete, sapato bicolor, mulheres de peruca ou penteados
elaboradíssimos, com vestidos coloridos como se estivessem indo para a igreja
no domingo de manhã. Tudo para ver o jazz.
Ainda
vimos no sábado um show sensacional de um latino que nasceu na Filadélfia -
Papo Vásquez era seu nome - com uma banda poderosa, multinacional, que saiu
do palco e foi tocar na platéia, do nosso lado, inclusive. Vimos pedaços de
outros shows em cada palco, e ainda ficamos na beira do rio que divide os EUA
e Canadá, que é um calçadão bem bacana, trocando olhares com uma senhora
divertidíssima, cada vez que passava uma moça, digamos, periguete (e tinha
várias, pensa que é só no Brasil?)... Fomos para casa às 10h da noite, e,
antes disso, atravessamos o centro, a pé, para pegar o carro num estacionamento
meio mandrake, escondido. Aí vimos a beleza noturna de Detroit. Andar a pé
possibilita ver detalhes de arquitetura, jardins escondidos, gente diferente,
ouvir sotaques, sempre olhando para todos os lados, que a gente é paulistano,
mano.
Repetimos
o programa no dia seguinte, desta vez para ver - de graça, eu já
disse? - o Pat Metheny, com sua música fusion, entre jazz e rock (e já
namorou a Sonia Braga, rá). Show fantástico. Desta vez tinha um senhor do meu
lado, negro, de uns setenta anos, sozinho, que assistiu ao show todo em
silêncio, mas batucando a mão na coxa, com uma autoridade de quem manja tudo.
Nos divertimos com uma turma no banco da frente (chegamos mais cedo para
garantir o lugar perto do palco), e presenciamos uma conversa (mais o Roberto
que eu) entre um cara de fora e uma senhora local sobre estilos, shows,
músicos, também com propriedade.
Tentei
ver o Vinícius Cantuária, que se mandou há uns vinte anos para cá e é
respeitado no meio, mas acho que peguei a data errada. Seria minha
oportunidade, acredito, de ver uns brazucas (será?). Enfim, fiquei só (só?)
com os gringos - engraçado é que gringa aqui sou eu.
Ainda
no domingo conseguimos realizar o sonho da Helena e levá-la ao
Hard Rock Café local, à noite! O mais legal é que tinha bem pouco de rock, lá
- terra da Motown... Caminhamos de novo no centro, com direito a perdido
desta vez, num lugar bem mais sinistro, mas - surpresa! - não aconteceu nada,
e voltamos para nossa casinha no subúrbio andando nas nuvens, com a música
nos carregando.
Na segunda, Labor Day, decidimos sair um pouco do jazz e ir para um festival chamado Arts, Eats & Beats, numa cidade bacana, Royal Oak, também na perifa de Detroit. Talvez por conta da overdose de boa música dos dias anteriores, este festival foi decepcionante. Os Beats (música) eram mais ou menos - eu ia ver o The Guess Who no domingo, mas fiquei com o jazz -, as Arts estavam mais para feirinha da Praça da República e tinha muito, mas muito Eats. Tinha até uma churrascaria brasileira, com garçons gaúchos e tudo, mas passamos longe. Tanta churrasqueira e forno gerou um calor infernal, que abreviou nosso passeio. Devia ter ido ao encerramento do Jazz Fest, pena.
O
mais legal de tudo é que pude conhecer finalmente a metrópole mais próxima.
Tinha graça, conhecer NY, Washington, Chicago (talvez Boston, ainda), mas não
conhecer Detroit? Como eu já tinha desconfiado, é uma cidade com alma.
Judiada, corrompida - tem cada escândalo aqui de dar medo, todos em
julgamento -, abandonada pela elite branca que fugiu para os subúrbios e
pelos negros bem-sucedidos, que os seguiram nos últimos anos, mas que, lentamente
se reergue.
Muitas
empresas já estão voltando, vai ter um shopping de luxo, estão demolindo
áreas degradadas para dar lugar a parques e escolas, só a economia que podia
dar uma ajudinha e gerar mais empregos para esta moçada não ir para a
bandidagem.
De
novo, me admira a capacidade deste povo de brigar, tem cada iniciativa que
deveria ser copiada por São Paulo, parecida em tantos pontos com a D-City.
Quem sabe na volta eu não me engajo em algum projeto para melhorar a minha
cidade? Aí vai ter valido a pena cada segundo aqui, ah, se vai.
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Demorou,
mas conseguimos ir a uma praia digna aqui em Michigan. Cheguei a pensar que
era puro marketing ianque a história de que aqui estão as mais lindas
paisagens aquáticas do país, mesmo não tendo mar salgado. Detalhe: além de
eles se marketearem para o resto do planeta, os americanos também praticam o
endomarketing, ou seja, cada estado diz que é melhor e mais bonito que o
outro. Deve ser esse espírito competitivo que os fez quem são. Enfim,
encaramos quatro horas de estrada rumo ao noroeste, quer dizer, cruzamos o
estado, porque moramos no sudeste, onde as praias são bem meia-boca, conforme
já provamos e eu relatei aqui no blog.
Fomos
para Charlevoix (não se pronuncia Char-le-vuá, como nós francófonos diríamos,
é uma pronúncia bem caipira, Char-le vôi), que fica num estreito entre os
dois lagos: o que dá nome à cidade e o Michigan, também conhecido como oceano
de água doce e azul-cristalina, por quem tenho nutrido um afeto
especial - deve ser porque ele não tem risco de tsunami nem maresia para
deixar a pele da gente melecada. Charlevoix faz jus à fama (é conhecida como
The Beautiful). A estrada que levava ao centro era florida, de lado a lado, por
toda a extensão, e assim era todo o centrinho, cheio de lojas bacanas pra
gente com grana torrar os dólas. Nós, não - somos povo de outlet, agora,
nunca mais vou conseguir entrar num shopping normal em SP. Só na 25, Bom
Retiro, Brás...
A praia propriamente dita era maravilhosa. Areia igualzinha à das nossas praias, branquinha, com a diferença que era imaculadamente limpa. A água, um escândalo de cristalina, sem onda. Como nem tudo é perfeito, era gelada de dar dó. A Helena bem que tentou se aproximar, mas até pinguim ficaria resfriado. As praias de Floripa são bem mais quentes, para dar uma idéia (só que aqui não tem argentino farofeiro, hehe). Fomos depois deste primeiro impacto conhecer o restante da região. E nada decepcionou. Tudo muito limpo, arrumadinho, e a natureza em volta fazendo sua parte, com paisagens belíssimas. Só estranhei não ver palmeiras nem chapéu de sol (aquela árvore que tem de monte em Santos e Praia Grande), mas pinheiros, bétulas, carvalhos... Muito engraçado, mas, mais uma vez, nada melhor do que mudar os padrões de pensamento, como diz minha sábia professora de yoga. E foi uma mudança radical mesmo. Só senti mesmo falta das barraquinhas com caipirinha e coxinha, isso eles não têm.
No
dia seguinte fomos conhecer a Sleeping Bear Dune, uma montanha de areia,
também eleita "o lugar mais bonito da América" pela National
Geographic. Para chegar à duna tinha um caminho lindo de doer, que não dava a
mínima pinta do que viria. Floresta total. Quando chegamos à duna, foi de
cair o queixo. Gigantesca, muito maior que a de Jericoacoara, que eu me
lembro, é imensa. Só que esta era maior. Lotada, gente do mundo todo, uns
loucos descendo até o lago - o engraçado era vê-los subir. Imagina os gordos
de quatro, subindo passinho por passinho.
Sadicamente,
fiz várias fotos, numa delas parece que o cara está morto. Eles pensam que
podem comer os hamburguers (hambúrgueres?) e steaks gordurosos depois encarar
uma rabuda daquelas. Quá.
Para
nosso azar, o dia estava nublado, ameaçando chuva. Para nossa sorte, choveu
bem na hora de ir embora. De lá ainda fomos para Traverse City, outra cidade
litorânea bem bacana, com um centrinho transado (eita!) e um rio que dava
ares europeus à paisagem. Deu para perceber que é uma cidade de artistas, bem
descolada.
E
assim voltamos para o leste do meio-oeste, no polegar (já contei que Michigan
tem o formato de uma mão, e a gente se localiza falando que está na palma, no
polegar, no indicador - só que ninguém fala que mora no dedo do meio...),
para Birmingham, a cidade que já chamamos de lá em casa, e que só não tem
praia (a de Detroit não conta, é longe e não merece o nome), mas não deve
nada às que visitamos. Principalmente a downtown, com suas lojinhas e
floreiras.
Já
são quatro meses de América. Estou naquele momento dividido, com saudades até
da Luna, meu dog (sonhei com ela, outro dia, e pensei: "Se já estou
sonhando com cachorro, a coisa tá feia"), dos lugares, das pessoas, da
minha casa na Pompeia, até de fazer compras no Pão de Açúcar da Alfonso Bovero
(sem contar os botecos, claro). Ao mesmo tempo, o coração aperta ao pensar
que em dois, três meses, vamos embora e, provavelmente, jamais voltaremos
para este lugar que nos acolheu tão bem. Afinal, quem vai para Michigan nas
férias? Talvez eu comece uma tradição, agora que aprendi a mudar os padrões,
quem sabe?
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23/08/2012
22:34 - publicado por Sandra Godoy
United Tribes of America
O
fim de semana que passou foi com certeza um dos mais ricos desde que chegamos
aqui - e olha que já teve NY, Chicago, Washington... Tudo porque pudemos
conhecer mais ainda de perto as tribos que habitam o estado de Michigan e
que, de quebra, acho eu, representam bem o país.
No
sábado teve a Woodward Dream Cruise, um desfile de um dia que na verdade
começou na quarta, com todo mundo exibindo os carrões antigos - e carrinhos,
e jipes, até tanque de guerra teve. A região parou - a Fox transmitiu ao
vivo, como no Carnaval do Rio, com comentaristas e tudo. Foi muito legal ver
pessoas de todas as idades - todas mesmo - desfilando com seus carros -
muitos clássicos, outros só antigos, mas todos com muita personalidade - pela
Woodward Avenue, bem onde moramos, uma avenida que na verdade é quase uma
estrada, como a rua Vergueiro, ou a ligação leste-oeste (Alcântara Machado,
Aricanduva). A impressão que dava é que eles ficam o ano inteiro preparando
os carros, que chegam tinindo ao desfile.
Foram
mais de 50 mil veículos, segundo a televisão, no congestionamento mais bonito
que eu já vi. E, tão bacana quanto o desfile é a participação do público.
Dizem que pelos 50 km do percurso - ida e volta, só não chegam até Detroit,
porque já criamos a piadinha, de que a rapaziada roubaria os carros... -
circulam mais de um milhão de pessoas e eu acredito, apesar da mania de
grandeza da moçada aqui do norte. Todo mundo vibrando, pedindo para o pessoal
cantar pneu, acelerar. Uma farra. E o desfile começou de um jeito bem
americano. Um comerciante de uma cidade aqui perto resolveu em 1994 levantar
um dinheiro para ajudar um time de futebol - o nosso, soccer aqui - infantil.
Aí começou a chegar mais e mais gente, tirando os carros da garagem (já falei
que eles amam carro?), e não só de Michigan, mas do país inteiro e até do
vizinho Canadá.
Mais
uma vez me surpreendeu a capacidade deste povo se divertir. Eu não fazia
idéia de como os americanos podem ser farristas - deveria saber, pela
quantidade de comediantes que esse país produz - de um jeito bacana, até
inocente. A avenida atravessa Birmingham, a cidade onde moramos, e fomos para
o centro, já na sexta-feira, onde tinha um show de rock fantástico, com uma
banda de coroas e um Elvis fazendo participação especial, desafinado até os
ossos. No dia do desfile meus vizinhos de condomínio puseram as cadeiras na
porta de casa e ficaram horas tomando refri, cerveja - pouca, porque aqui a
bebida não é combustível de alegria, como no nosso carnaval e nas festas
alemãs - e , claro, comendo, comendo, comendo. A gente não fez diferente, e
no final da tarde, puxamos nossas cadeiras desmontáveis - que vou levar para
o Brasil, não sei como - tomamos umas beer - light, claro -, comemos corn dog
(salsicha empanada no espeto, nada light) e nos divertimos como os locais.
Achando
que já havíamos visto tudo na reunião da tribo dos cars lovers,
encaramos no domingo uns 50 km de estrada e fomos para o Festival da
Renascença de Michigan. Aí conhecemos mais uma tribo, ou melhor, várias
tribos, coisas que eu só tinha visto no The Big Bang Theory ou em filme de
nerd. A primeira supresa foi o lugar: uma cidade construída especialmente
para abrigar o festival, que dura somente dois meses mas, aparentemente, leva
o ano todo sendo preparado. Já no estacionamento, começamos a encontrar as
figuras: moças gorduchas de espartilhos que deviam cortar a circulação,
cavaleiros, piratas, parecia um grande baile de carnaval ao ar livre, só que
com todo mundo falando inglês.
Eu
achava que só iria encontrar nerd gordo e esquisito, encontramos famílias
inteiras, gente de cara muito boa, todos vestidos de alguma coisa que eles
julgam ser a Renascença (Leonardo da Vinci deve estar se revirando até agora
na tumba), mas parecia mais cenário das séries trash Hércules e Xena, ou
filme do Conan. Não importa. O que valeu foi, mais uma vez, ver a incrível
capacidade que eles têm de pagar mico, e de rir muito de si mesmos. Até me
arrependi de não ter alugado um vestidão... A festa vai até o fim de
setembro, quem sabe eu não volto toda montada? Ah, e claro tinha uma coxa de
peru que é o prato principal da festa, mas que parece mais uma pata de
dinossauro, absolutamente enorme e torrada, nem cheguei perto.
Neste
fim de semana vamos mudar de paisagem, literalmente. Saem as tribos, entram
as dunas. Vamos para o norte, numa região que dizem ser uma das mais bonitas
da América, à beira do lago Michigan, um oceano de água doce, azul, azul,
azul. Diz que tem umas dunas de mais de 100 metros de altura - vamos ver se
ganha de Jericoacoara ou é só papo. Outro dia vi um programa sobre a região e
me encantei com o pessoal. Aliás, não gosto mais de ficar passando o
carro na frente dos bois, mas já sinto que vou ter saudade do pessoal daqui,
a maior surpresa de todas. Dia após dia, em todas as situações possíveis,
somos brindados com a boa-gentice michigander. Já escrevi milhões de vezes, e
não canso de repetir: o povo é amigável, simpático, bonachão (!), solidário,
de uma simplicidade que nunca imaginei encontrar aqui do lado de cima. Aprende, Sandra Maria!
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15/08/2012
21:25 - publicado por Sandra Godoy
A riquíssima fauna norte-americana
Eu
me prometi escrever pelo menos uma vez por semana para contar as nossas
aventuras em terras gringas. Mas, com o passar do tempo, as novidades vão
minguando, minguando... É igual esquilo: quando chegamos, cada vez que
víamos um, fazíamos: ownnnnn, que lindinho... Com o passar do tempo - e com a
absurda quantidade desses bichinhos aqui - fomos nos acostumando. Hoje,
quando vejo um, falo: ah, esquilo... Espero não chegar o dia em que eu vou
dar uma bica para um deles sair do meu caminho, igual pomba - brincadeira,
brincadeira.
Então.
Continuamos no propósito de conhecer o máximo no mínimo tempo. Só que não dá
para ir a New York ou Chicago toda semana, que pena, mesmo porque precisamos
economizar para o gran finale, em novembro: viagem para Califórnia e Flórida,
de cabo a rabo, ambas (claro que vai ter Disney, fazer o quê,
quem mandou ter filha tween?). Assim, munidos de muita boa vontade e algumas
indicações dos nativos, fomos para outro estado: Ohio, cuja divisa fica a uma
hora daqui.
A
aventura tinha destino certo: o Zoo de Toledo (pronuncia-se Toliro), que eu
vou aqui em zoológico tanto quanto vou a museu, está virando fixação. Mas,
enfim, é sempre bom ver alguns bichos diferentes do Zoo SP (a gente vai
tanto lá que uns bichos já nos cumprimentam, devem estar com saudades). O zoo
não é grande coisa, pensei que fosse maior e mais sortido. Claro que a gente
tem mania de comparar com o nosso, mas, quando se vê o tamanho (e a
decadência econômica) de Toledo, tem que bater palmas por eles
conseguirem manter uma instituição dessas, muito bem cuidada, aliás.
Mais
uma vez, nos chamou atenção a fauna externa às jaulas. Opa, jaula, não: os
bichos ficavam separados por vidros, muitos chegavam bem pertinho, bem legal.
O que eu quero dizer é sobre os visitantes, os humanos. Muitos, muitos obesos
mórbidos, boa parte deles montados em carrinhos para deficientes (a coisa
está tão feia que obeso já considerado deficiente por aqui), circulando
alegremente pelas alamedas do zoo, atropelando com prazer quem passava na
frente... Assustador.
Quando
quase estávamos saindo, meio que decepcionados com o "acervo" do
zoo, resolvemos dar uma olhadinha na direção de uns canteiros bem floridos.
Sábia decisão: chegamos ao paraíso, um jardim botânico pequeno, mas
maravilhoso, com uma estufa cheia de bromélias, arecas, jibóias (a planta),
marantas. Fiquei com banzo na hora. O que a gente planta em lata de tinta, em
balde, eles colocam como raridade em uma casa de vidro. Mas como a gente
considera orquidea carne de vaca (velha, essa), preferi ver as flores, rosas
e outras plantas que nem sei o nome, que só tem aqui. Fiz milhares de
fotos.
Conclusão:
fui ao zoológico e gostei mais das plantas que dos bichos, tadinhos. Mas, de
novo, valeu a experiência. Na saída do zoo, me assustei com a decadência da
cidade. Quase abandonada. Pior que Detroit. A gente não tem idéia como as
sucessivas crises estão castigando este país, pelo menos aqui no Meio-Oeste,
terra do automóvel.
Falando
em automóvel, parei agora um pouco para tirar umas fotos da avenida em frente
à minha casa, onde vai ter o maior evento do ano na regiáo: a Woodward Dream
Cruise, segundo os organizadores, o maior desfile de carros de todo o mundo.
São esperados cerca de 50 mil - 50 mil! O desfile mesmo vai ser no sábado,
mas desde a semana passada parece que a gente voltou no tempo, encontrando
pelas ruas carros dos anos 20 até 90, todos muito conservados, com uns
motores de arrepiar. Neste momento está um congestionamento de Buicks, Fords,
Cadillacs, Camaros, Mustangs, jipes, não dá para contar a quantidade de
modelos e marcas.
Eles
amam, mais que isso, veneram o automóvel. Dá para entender, porque é a fonte
básica de renda da região. Tanto que, quando a GM espirra, Detroit tem
pneumonia. O automóvel também tem toda aquela mitologia de poder que é tão
cara aos americanos. E eu, que também gosto de carro, estou me
lambuzando. Ah, e virei correspondente internacional: vou fazer uma matéria
sobre o mercado de autopeças daqui para uma revista brasileira. Já tinha
feito uma matéria igual, só que do Brasil, agora vai ser in loco. Já tenho
dois repórteres-assistentes, o Roberto e meu professor de inglês. Vamos ver
como me saio nas entrevistas, se for como as que eu fazia em alemão, vai ter
sangue, suor e lágrimas - e muitos risos depois.
Tem
outra coisa que vou experimentar neste fim de semana, depois do porre de
carros. Vamos a uma feira de renascença! Sabe aquelas reuniões com gente
vestida de cavaleiros, fadas, cruzados e tudo quanto é tipo esquisito? Pois
é, vamos a uma, a mais tradicional de Michigan. Bem que eu queria ir
fantasiada, mas ainda não chego aos pés da cara de pau dos americanos, que
não têm a menor vergonha em parecer ridículos. Acho muito legal. Ih, será que
já estou assimilando o espírito ianque?
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08/08/2012
21:28 - publicado por Sandra Godoy
No Detran daqui
Adoro
o Asterix. Sempre achei muita graça nos franceses mirrados (menos o
Obelix) que enfrentavam meus antepassados romanos e sempre venciam. Claro,
sendo franceses malacos, eles tinham a ajudinha da poção mágica do druida
para dar um pau por dia na turma do César.
Outro
motivo que me faz ter um carinho especial pela turma de bigodudos gauleses é
que eles foram meus primeiros professores de alemão na Áustria, assim como
foi o Freddie Mercury com o inglês (pelo jeito que cheguei aqui, deu para ver
que ele não foi tão bom assim...). Anyway, o dono da casa em que eu fui morar
nos Alpes era um cara estranho, que colecionava O Senhor dos Anéis em vários
idiomas, tinha uns quadros esquisitões pintados por ele (que se achava
artista) e queria ter nascido escocês, em suas próprias palavras. A única
coisa boa da casa de nerd em que ele morava era a coleção
completa do Asterix. Como eu cheguei lá sozinha, falando um alemão pior que
meu inglês daqui, a saída for ler tudo o que tinha por perto, para aprender.
Claro que das aventuras de Frodo e Gandalf eu não passei da primeira página,
mas li e reli várias vezes todos os livros do Asterix que tinha lá.
Uma
das minhas histórias favoritas era uma paródia dos doze trabalhos do
Hércules. Além das tarefas que sempre acabavam em pancadaria, teve uma que
eles quase não cumpriram: conseguir um documento em uma repartição pública.
Eles quase enlouqueceram e, se não me engano, devem ter resolvido no tapa.
Tudo
isso eu lembrei durante minha odisséia para conseguir minha carteira
de habilitação americana, nos últimos dois meses. Americana, não. De
Michigan, porque se eu sair daqui vou ter que tirar em outro estado, e não
sei se tenho estrutura mental para fazer de novo.
Eu
fiquei maravilhada – até postei lá embaixo – com o atendimento no SUS daqui.
Tive que voltar lá e vi que não foi por acaso. Atendimento nota dez, embora
desta vez eu tenha tido que pagar, porque já tenho plano de saúde (que
reembolsou a vacina, by the way). Iludida com a eficiência do pessoal da
saúde, fui toda pimpona tirar minha carteira, junto com o Roberto e nossa
querida baby-sitter (cujo trabalho se encerrou antes de eu começar a saga, na
verdade acho que ela caiu fora por medo do tamanho da encrenca).
Com
o Roberto deu tudo certo. Como ele tem o cartão do seguro social (senha para
conseguir tudo por aqui), já fez o exame de vista e o escrito no balcão
mesmo. Aprovado em tudo, o espertinho. Só faltava fazer o exame de direção –
eles não acreditam que a gente sabe dirigir. Quando chegou a
minha vez, a primeira surpresa. Uma carta que atestava que eu estou aqui como
dependente dele (um soco na minha autoestima feminista) e que por isso não
posso trabalhar (outro soco), estava vencida havia um dia. Deveria fazer
outra. Aí eu volto aqui e faço o exame, certo? , perguntei . Aí a barnabé
local: não, Madam, você tem que esperar a gente ligar porque seu caso está em
outro nível, agora. E eu pensando que nível seria esse... Será que fizeram um
levantamento com todas as batidas estúpidas que dei em São Paulo e até as
internacionais, como na Alemanha?
A
baby-sitter (uma venezuelana contratada por uma firma que faz o
“assentamento” dos expatriados por aqui) já quis marcar para a próxima semana
para ir ao INSS daqui, mas, brazucas destemidos que somos, encaramos a
primeira ida sozinhos (eu, não) a uma repartição pública e conseguimos uma
segunda via da carta, no mesmo dia.
Os
caras levaram nada menos que três semanas para me ligar. Voltei ao Detran
(que aqui se chama Secretary of State, imagina) com a tal carta e – adivinha?
– faltava um número de alguma coisa que, claro, eu não tinha levado. Desta
vez eu fui sozinha. Voltei para casa, peguei todos os papéis que me permitem
ficar aqui em solo americano – que são muitos- e voltei lá. Detalhe: cada
ida, sem trânsito, leva meia hora. Voltei, entreguei tudo e – adivinha? – os
números não batiam. A moça até que simpática me disse para eu voltar para
casa e esperar outra ligação que, claro, demorou mais uns dez dias e a tal
carta do INSS venceu de novo. Ai, meu santo, pensei.
O
problema é que a cada ida eu estudava, CDF que sou, todo o livrinho de leis e
placas daqui (algumas bem diferentes das nossas). Eu estava me tornando
a maior especialista em leis de trânsito do estado. Fui de novo ao INSS –
que, por que não?, mudou-se para uma cidade mais longe um pouco – e lá fui eu
disputar a atenção dos funcionários públicos (que parece ser uma espécie
única em qualquer país do mundo) com os velhinhos, árabes e demais coitados
que querem provar que não vão explodir nada por aqui (disso os locais se
encarregam), só querem viver em paz e, quem sabe, receber algum benefício...
Conseguida
a carta, voltei ao Detran. Quinta vez. E a pior. A mulher que me atendeu foi
a mais mal-humorada, grossa e sem paciência de todos (e olha que passei por
uns vinte). Para o meu azar, acho que ela era chefe. Como o Roberto havia
feito (a esta altura, ele já estava com a carteira dele em mãos,
aprovadíssimo em teoria e prática de direção ianque), pedi o exame em
português, achando que seria mais fácil. Tolinha.
A
prova deve ter sido traduzida pelo Google Translator e, como eu não havia nem
olhado para o maldito livrinho naquele dia, foi uma marravilha. Fiz e refiz
várias vezes as questões, algumas eu achava que estavam todas erradas,
outras, todas certas. Resultado: a mocréia que me atendeu olhou bem na minha
cara e disse “You didn’t pass, you failed”. Precisava humilhar? Aí eu,
atônita – ser reprovada em provas estúpidas não é algo comum em minha nerd
vida – pergunto: O que faço?, e ela: outra prova, agora, só que como você não
passou em português (repetiu com orgulho, a vaca), vai ter que
fazer em inglês. E eu, pensando: agora que eu tô lascada mesmo...
Para
minha surpresa, passei! Outra moça me atendeu – a bruxa saiu para almoçar – e
me comunicou que agora era só fazer o teste de direção, em uma auto-escola.
Para minha sorte – também sou filha de Deus, ora – fui na mesma escola
que o Roberto, e fiz o teste de direção com o mesmo examinador, um cara gente
finíssima que ficou me indicando lugar para comer panquecas enquanto avaliava
minhas barbeiragens. No fim, passei, e tive que voltar – pela sexta vez –
para tirar a foto e pagar a carteira. A bendita chegou uma semana
depois, pelo correio. Agora já posso dizer que sou uma motorista
michigander. Fico imaginando como é para tirar brevê para pilotar ônibus
espacial...
E,
pela primeira vez na vida, senti saudades daquele profissional que só tem no
Brasil: o despachante.
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01/08/2012
22:37 - publicado por Sandra Godoy
As cidades e suas almas
Seguindo
nosso plano de conhecer o máximo da América no menor tempo
possível, neste fim de semana arrumamos as malas e pegamos a estrada para
Chicago, berço político do Obama, terra do Al Capone e, não por acaso, a
cidade favorita do Frank Sinatra. O GPS nos informou que seriam quatro horas
de viagem. Moleza, é como SP-Ubatuba, pensamos. O que o GPS (que apelidamos
carinhosamente de Maurice - ou Bourrice, como diz o Roberto) não fala é que
pode ter um trânsito monstruoso de final de sexta-feira, de dar inveja às
marginais em dia de enchente.
Levamos
uma hora e meia para chegar ao hotel, a uns três quilômetros do
engarrafamento. A boa notícia é que o pessoal é beeem mais educado que o
motorista paulistano típico, aí não tem aquele stress todo de ninguém deixar
mudar de faixa, de enfiar o carro na sua frente, xingar toda sua árvore
genealógica. Nisso, a maioria dos american drivers - com honrosas e raivosas
exceções, sempre - é formada por gentlemen e ladies ao volante. Dá gosto. Vai
ser dura a volta.
Com
este gostinho de São Paulo na chegada, fui pronta para amar
Chicago. Afinal, é a terra do blues, pra começar. Primeira decepção: não
conseguimos assistir ao um mísero showzinho de blues, nem na calçada. Já
havíamos tentado, via internet, descobrir um lugar que aceitasse a entrada de
uma blueseira de doze anos depois das 18 horas. Nada. Aí pensamos que ao
chegar na cidade, haveria músicos por toda parte, como em New York
(suspiro...), ou algum festival num dos parques lindos e modernos. Nenhum.
Conseguimos ir ao um show gospel - que foi demais, diga-se de passagem - na
House of Blues, na hora do almoço, que acabou pontualmente às duas.
Hallellujah!
Acho
incrível que as crianças vão à escola sozinhas no ônibus amarelo, ficam semanas
em acampamento, andam pela cidade desacompanhadas e podem até viajar de avião
sem adultos, mas ir a um show de blues, mesmo com os pais, não pode.
Decepção
com o blues, deslumbramento com a arquitetura da cidade. Chicago é um museu a
céu aberto, com prédios de todas as épocas e estilos, convivendo
harmonicamente. Aí, como os caras são bons mesmo de marketing, tem um
cruzeiro pelo rio que passa no meio da cidade (como o Tamanduateí, Tietê,
Pinheiros...), com um guia explicando a história de todos eles. Fizemos este
cruzeiro logo no sábado de manhã e, de tanto olhar pra cima e fotografar,
mareei de dar dó. Estou meio tonta até agora, como nos velhos tempos de
labirintite. Apesar do bode, amenizado com uma dose cavalar de Dramin que me
chapou pelo resto do dia, valeu o passeio.
Felizes
por estar de novo em terra firme, fizemos nosso passeio tradicional pela
cidade, ajudados pelo guia Frommer's que, junto com o GPS, é nosso melhor
amigo agora. Conhecemos mais lugares bonitos, com obras de arte na calçada,
fontes que projetam rostos enquanto a água esguicha, um concha acústica
que parecia uma escultura gigante - e falando nisso, a maior de todas as
obras de arte de Chicago: a Cloud Gate, mais conhecida como The Bean
(feijão), uma mega escultura do Anish Kapoor em aço polido, que reflete tudo
em volta, como aqueles espelhos que deformam. Estava lotado, todo mundo
fotografando, o máximo.
De
lá fomos ao Art Institute of Chicago, do qual eu não tinha muita informação,
mas que no final valeu todo o passeio. Para começar, tinha uma exposição
gigantesca do Roy Lichtenstein, um dos papas da pop art. De morrer. De
repente, encontro o quadro American Gothic, um ícone da arte moderna. Outro:
Nighthawks, um que é um casal no balcão de uma lanchonete, que vários filmes
já homenagearam (até na série Gilmore Girls). E a maior de todas: o Quarto,
do Van Gogh, que eu já fiz até quebra-cabeça, e nem imaginava que estava lá.
Fora a quantidade de impressionistas: Monet, Renoir, Manet... Acho que tem
mais lá do que no Louvre. Anota aí: um dos museus mais bacanas do mundo. Dos
que eu conheço, está entre os Top Five.
Depois
de um sono agitado (muita informação dá nisso), pegamos a estrada de novo no
domingo de manhã e fomos para Oak Park, um subúrbio de Chicago que
abriga a casa/escritório do arquiteto Frank Lloyd Wright, gênio que mudou
todo o conceito de moradia no século passado, e a casa onde nasceu o Ernest
Hemingway.
Claro
que tem um museu lá, mas, vacinados, não entramos. Prefiro gastar meus poucos
dólares para ir aos big museus (o que, aliás, é muito caro aqui, qualquer que
seja o porte). Chega de ver o copo onde o cara tomou água, a bota que ele
calçou ao entrar em casa, um bilhete para a empregada...
Para
encerrar a maratona de dois dias que valeram por uns sete, fomos
ao aquário. Dizem que é o maior do mundo, mas sabe como é americano, pior do
que o cara de Itu. Mesmo assim, encaramos fila, calor e a multidão lá dentro
para ver se era tudo isso mesmo. Era. Tinha amostras de vida marinha e
fluvial de todo canto do mundo, da Amazônia (tinha até pirarucu que, claro,
aqui tem outro nome, imagina eles tentando pronunciar) às Filipinas, um
recife de coral gigantesco (criado lá), tubarões enormes, até baleia beluga,
aquela branca com cara de boazinha.
Mas
o melhor de tudo foi a exposição das águas-vivas. Eu só tinha visto em
documentário do NatGeo e na areia da praia, já defuntas. Como, não canso de
repetir, os caras são bons de espetáculo, montaram a exposição de um jeito
que pareciam obras de arte.
As
criaturas ficavam em tanques com fundo colorido, luz especial que as
transformava em pinturas abstratas, com uma música de fundo que me deixou
mais zen do que três horas de yoga. Lindo.
Não sei se por conta de tanta informação visual, esta viagem foi a mais cansativa de todas. Na segunda ficamos os três de ressaca, e fomos dormir como os nativos, às 9 da noite. Apesar de todo o deslumbre visual que a cidade nos ofereceu, parece que ficou faltando alguma coisa. Chicago tem arte, arquitetura, blues e até uma praia de lago magnífica, com uma orla linda. As pessoas foram amáveis, mas daquele jeito meio aeromoça ou recepcionista de hotel, sabe? Chamou a atenção a quantidade de pedintes, sem-teto, mendigos e malucos pelas ruas. Reflexo da crise americana ou característica local? Nâo sei.
Diferentemente
de New York ou Paris, que as pessoas amam ou odeiam, Chicago me pareceu meio,
sei lá, insossa. Como bem definiu minha filósofa pré-adolescente, "uma
cidade sem alma". Embora seja mais perto, não sei se vamos repetir o
passeio (prefiro voltar para NY e ver o que faltou). Ou, quem sabe, voltar
para desfazer a impressão. Por enquanto, decidimos investir nossos dólares
(cada dia mais escassos...) em viagens por Michigan, que tem paisagens
lindíssimas (saindo de Detroit, que é caída, mas tem alma) e um povo que, até
agora, não encontrei em nenhum lugar desta América do Norte.
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18/07/2012 22:47 - publicado por Sandra Godoy Michigan, 40 graus
Enquanto
São Paulo congela, em Michigan o calor arrebenta, literalmente.
Ontem fez 109 graus F, mais ou menos uns 40 graus nossos. Aliás, tenho
sofrido o diabo para converter graus, milhas, pounds, galões... É parte mais
difícil do aprendizado para mim, falar inglês e fazer conta ao mesmo tempo.
Não dá. Seria mais fácil se eles fossem como os canadenses, que usavam esse
sistema maluco, mas foram aos poucos mudando para o sistema métrico, do resto
do mundo. Acho que o problema é esse. Os americanos não são o
resto do mundo - pelo menos eles acham isso. Daí botam a cabeça da
gente para trabalhar - minha entrevista com a personal trainer da academia
foi antológica, ela me perguntando peso, altura, qual o peso dos aparelhos
que eu fazia no Brasil e eu só fazendo conta, devo ter informado tudo errado.
Mas,
enfim, está calor pra caramba aqui. E o negócio é como no Nordeste do Brasil:
já amanhece quente. Dormir, então, só com o ar condicionado (que, diga-se de
passagem, da minha casa americana é bem meia-boca), e muita, muita
água.
Quando
chegamos aqui, no fim de abril, ainda estava frio. Começou a esquentar e, no
primeiro calorão, morri de rir com as recomendações da TV: fique eu casa ou
vá para o shopping, biblioteca ou lugares com refrigeração. E eu: what? No
Brasil é ao contrário: esquentou, vamos pra rua! Aqui é: esquentou, fica em
casa! Ainda estou assimilando um pouco disso, mas já posso compreender: o
organismo deles é diferente do nosso, tropical. Apesar das reclamações do
frio inclemente em SP, temos, na verdade, pouca variação térmica.
Aqui
varia dos 40 positivos para os 30 negativos (não sei se exagero, mas as fotos
do inverno em Michigan impressionam). Haja organismo. E o deles está mais
preparado para o frio. Até hoje me divirto (e divirto os outros) usando blusa
quando eles estão de shorts e camiseta - e sandálias havaianas, a visão do
inferno.
Tem
uma blogueira brasileira que mora em New York (e que me ajudou muito no
planejamento da minha viagem para lá - suspiro - http://abrindoobico.com/ para quem se
interessar) que diz que prefere a visão dos americanos no inverno, todos
cobertos, do que com bermudas e sandálias. Fui lá e pude confirmar. Hideous,
como eles dizem.
Com
este calorão todo, decidimos no sábado conhecer um das praias de um dos lagos
- Michigan é o único estado americano cercado por quatro lagos, que poderiam
ser chamados de mares, sem problema. Segundo meu professor de inglês, a água
dos Great Lakes é tanta que dá para cobrir todo o território americano em
mais de dois metros. É mole?
Enfim,
decidimos ir para Port Huron, a uma hora daqui. Na semana anterior, fomos
para o Lake Erie, o menor deles, que já foi um aperitivo. Parênteses: nos
perdemos em uma das cidadezinhas "praianas" ao sul de Detroit,
chamada Monroe, e nos deparamos com a cena mais grotesca vista até agora. Ao
lado de casinhas bonitinhas (e muito diferentes do nosso conceito de casa na
praia), havia um lindo playground, com balanços, escorregador... e um canhão
apontado para os brinquedos! Era um tanque de guerra - não sei como foi parar
lá - desativado (espero), mas estava do lado do parquinho. Jamais deixaria a
Helena brincar lá. Por azar tinha acabado a bateria da máquina, mas pretendo
voltar e registrar o absurdo.
Voltando
a Port Huron. Nunca vi uma água tão azul em toda minha vida. Como
comentei, o mar perfeito: azul, sem sal e sem o risco de tsunami (meu
pesadelo recorrente desde os cinco anos de idade). A cidade é porta de
entrada para o sul do estado - Michigan tem o formato de uma mão, e eu moro
no polegar, não é engraçado? Tem um riozão, o Saint Clair, que abre para o
mar, ops, o Lake Huron.
No
dia estava tendo uma regata para o norte do lago, mas vimos poucos - porém
potentes - barcos. Port Huron também foi a cidade onde Thomas Alva Edison -
é, aquele, o da luz elétrica - morou entre os sete e os dezesseis anos. E tem
um museu dele lá. Fiquei empolgadíssima com a idéia de conhecer o museu, para
mim o que apareceu num dos episódios dos Simpsons (Springfield, para mim,
fica em Michigan, com certeza).
Mas,
decepção total. O museu, na verdade, é uma casinha com algumas coisas que
pretensamente pertenceram ao Thomas Edison. Como garrafas quebradas, que
podem ter sido usadas em seus primeiros experimentos. Ou uma máquina de
escrever. Ou um protótipo de telégrafo... A senhora do caixa ainda nos tentou
vender ingressos para duas outras "atrações" locais - um museu
histórico e outro que ficava dentro de um barco, mas eu tive um
pressentimento e falei: no, thanks! a tempo.
Aí
eu fiquei pensando nesta mania de americano em fazer museu de tudo. Tem
coisas maravilhosas, como o Museu da Motown. E os de Washington e New York,
que nem preciso falar. Mas também tem esses pequenininhos (dizem que em NY
tem mais de cem), em todas as cidades, de todas as coisas. Não sei se os
considero uma tentativa de preservar a memória local e de seus habitantes,
alguns notáveis como o Thomas Edison, ou se são meros caça-níqueis de
turistas ingênuos (eu devia ter desconfiado, éramos os únicos lá). Saindo do
museu, ainda fizemos outra tentativa de conhecer um farol histórico, mas ao
vê-lo, nem nos demos ao trabalho de estacionar, era uma torrezinha, escondida
no meio das árvores.
Isso
tudo me faz pensar como os americanos são bons de marketing. Afinal, eles que
inventaram a palavra - e o conceito também. Dia a dia tenho percebido comos
eles são profissionais em divulgar o que têm de bom (e mesmo o que não é tão
bom assim). Eles fazem propaganda de tudo, tudo mesmo. Tem
anúncio até no papel higiênico, se bobear. Um dos exemplos
mais gritantes de como eles são bons em vender tudo foi o show que
assistimos na semana em que voltamos de New York. Ainda entorpecida pela Big
Apple, fui cumprir minha função de mãe legal (Helena, agradeça-me para
sempre) e levei minha filha ao show do American Idol, cuja turnê começava
exatamente em Detroit.
Para
quem não conhece, o American Idol é um mega programa de calouros, que busca
os potenciais ídolos por todo o país. Jennifer Lopez e Steven Tyler eram os
jurados até este ano (dizem que agora um deles será a Aretha Franklin, olha o
nível). Já teve a final, o vencedor é um menino de 21 anos que canta com uma
voz entre Joe Cocker e Bruce Springsteen, apesar de meu favorito ser um negão
que cantava James Brown divinamente. Mas não acaba por aí. Os dez primeiros
colocados saem em turnê pelo país, numa produção digna de Madonna (que estará
em Detroit em novembro, acho que vai dar tempo de assistir a filha da terra)
. Eu acompanhava o programa no Brasil e achava os caras bons (parece que
americano já nasce sabendo cantar, dançar e atuar...), mas nada se compara ao
que vimos na Joe Louis Arena, um dos ginásios mais tradicionais da Motor
City. Parecia um show de profissionais veteranos do show business.
Afinadíssimos, cantando solo ou em grupo, me emocionei (novidade) com todo o
aparato tecnológico - som, luz, efeitos - somados à voz potente e à presença
de palco dos jovens artistas - a segunda colocada do concurso tem 16 anos, e
canta como uma diva da soul music!
Eles
- os americanos - têm a capacidade de transformar tudo em espetáculo. Outro
exemplo é o jogo de baseball, esporte que ainda não desisti de aprender e,
para tanto, fizemos uma segunda tentativa, esta semana, desta vez com uma
americano gente finíssima, colega do trabalho do Roberto, que se ofereceu
para explicar as regras. Fiasco total. Conosco foi um casal de argentinos,
que entendia tanto quanto nós - nada. Mas, no final, o jogo é o que menos
importa. Como da primeira vez, não dá para não se contagiar com o clima de
festa no estádio. É um tal de concurso disso, concurso daquilo, kiss cam
(quando você aparece na câmera tem que beijar, até o Obama deu um big kiss na
patroa no jogo de basquete contra o Brasil esta semana), que a gente até
esquece do jogo. Aliás, continuo sem entender as regras, mas disseram que foi
um jogão. Hum.
Acho
que a gente, no Brasil, deveria aprender um pouco mais com eles - não apenas
macaquear, aprender mesmo. Tem coisa aqui tão mixuruca, que eles transformam
em algo grandioso. A gente tem as coisas grandiosas, mas trata como se fossem
mixurucas. Por exemplo: por que não fazer de São Paulo uma New York? Eu
fiquei pensando, mesmo ainda apaixonada pela cidade: o que ela tem demais?
Paisagem? Não. Tudo é construído, inclusive o Central Park. A gente tem o
Ibirapuera, o Villa-Lobos, até o da Aclimação. Temos cultura,
temos arte - boa -, temos o Sesc, temos a Vila Madalena, temos comércio de
luxo e popular. Por que não fazer disso uma atração fatal para o mundo - ou
pelo menos para o resto do Brasil?
São
coisas que a gente só pensa longe de casa.
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13/07/2012 00:13 - publicado por Sandra Godoy
I left my heart in New York
Demorei
para escrever sobre a viagem para New York porque estava assimilando ainda a
tonelada de informação e emoção que recebi nos cinco dias em que ficamos lá.
Com raríssimas exceções, fomos desestimulados a conhecer a cidade da música
do Frank (o Sinatra, para quem não sabe, eu só o trato pelo primeiro nome,
íntimos que somos) pelos nativos daqui. Pura inveja, como pude constatar. Ou
medo da cidade grande, quem sabe.
Depois
de um voo atribulado – turbulência daqui até lá, para minha alegria – mas sem
os exageros da homeland security que imaginei que teria (tive que me despir
menos do que em Cumbica, na vinda para cá), tive a primeira amostra grátis do
comportamento new yorker. Chegamos pelo aeroporto de LaGuardia, o Congonhas
daqui, só para voos domésticos. Uma zona. Ao sair da área de bagagens, demos
de cara com a Glenn Close – é, ela mesma, de Atração Fatal, Ligações
Perigosas, baita atriz. Ela vinha caminhando toda de preto, cabelo branco
desgrenhado, sem maquiagem e absolutamente incógnita. Solenemente ignorada.
Não sei se era porque ela estava com o disfarce natural (isto é, sem
maquiagem, cabelo, roupa etc.) ou se os caras não estão nem aí mesmo. Fico
com a segunda alternativa.
Paulistana
que sou, e como meus conterrâneos, vítima injustiçada da má fama que
carregamos (grossos, rudes, frios, egoístas, workaholics), sempre me
solidarizei com o povo de New York (também famosos por serem grossos, rudes,
frios, egoístas, workaholics), e achava que era tudo mito. Mais ou menos. A
melhor tradução do que eles chamam de new yorker attitude eu presenciei na
ponte do Brooklin: uma turista (americana, tipo do meio-oeste) caminhava com
sua sombrinha (estava uns 40 graus) pela passarela da ponte. De repente, na
direção contrária veio uma mulher com a maior cara feia, deu um tapaço no
guarda-chuva da coitada e soltou um “fucking umbrella!” que até a estátua da
Liberdade ouviu. Eu vinha logo atrás, e só faltou eu gritar: “na cabeça,
não!”
Continuo
tomando cuidado para não generalizar – julgar o todo pela amostra – mas é
evidente que os new yorkers são beeeem diferentes do resto da nação. Pelo
menos de Michigan, que é onde conheço melhor. Senti saudades dos sorrisos, da
simpatia e da boa educação michigander. Mas também não é tudo isso que falam,
não. Certo que já li que eles mudaram bastante depois do 11 de Setembro,
ficaram até um pouco solidários, dizem. Provavelmente por ser paulistana,
again, pude entender e até simpatizar com a fauna local.
New
York é terra de ninguém e de todo mundo, ao mesmo tempo. Difícil era ouvir
inglês nas ruas. Em todo lugar se fala espanhol, mandarim, árabe e – nas
lojas, principalmente – português dos brazucas shopaholics. Aliás, nota
triste: se você quiser ouvir português em New York, vá à Times Square e em
qualquer loja, em qualquer canto da cidade. Se não quiser ouvir, vá ao museu.
Incrível que numa cidade com mais de cem museus – maravilhosos como o MoMa, o
Metropolitan e do de História Natural, que tivemos a felicidade de conhecer –
o pessoal prefira ficar nas feirinhas dos camelôs comprando tudo quando é
porcaria (que tem na 25 de Março também), compulsivamente. Fiquei
envergonhada ao ver chineses, indianos, mexicanos, argentinos, franceses,
muitos alemães, mas quase nenhum brasileiro nas atrações culturais que a
cidade generosamente oferece. Fazer o quê, viramos macacos de imitação dos
americanos, mas, aparentemente, só no que eles têm de pior – o consumismo.
Claro que eu vi brasileiros no camelódromo e na Times Square porque eu também
estava lá – tenho uma filha de 12 anos que deve ser constantemente monitorada
em sua ânsia de levar a Estátua da Liberdade para casa (a verdadeira) – e
também gosto de comprar, mas a vida é mais que isso. E, em New York, é um
pecado.
O
mais importante – e que não me surpreendeu – é que eu me apaixonei pela
cidade. Fizemos os programas obrigatórios de turista (Estátua da Liberdade,
Times Square, Empire State Building, Rockefeller Center, Ponte do Brooklin,
os museus), mas também nos aventuramos em bairros como Greenwich Village, uma
cidade dentro da cidade, com seus prédios de tijolinhos vermelhos e escadas
do lado de fora, gente descolada e gentil – um cidadão, nova-iorquino da
gema, nos viu enrolados com um mapa e veio se oferecer para ajudar, ainda
falou que adora Fortaleza -, um arco igual ao do Triunfo, de Paris e uma loja
que homenageia o Big Lebowski, um filme cult dos irmãos Cohen, que eu adoro.
Ah, e uma loja de discos também digna de filme, com vinis e cds de tudo
quando é banda de rock. Foi fantástico o passeio, quero morar lá. A gente tem
a impressão que vai encontrar o pessoal de Friends na próxima esquina ou,
quem sabe, o Seinfeld. Já pensou?
Também
passamos o domingo no Central Park, o quintal deles. O mais emocionante é que
andamos centenas de milhas dentro do parque para encontrar o Strawberry
Fields, da música dos Beatles, que fica em frente ao Dakota, o prédio onde o
John Lennon morava e na porta do qual ele foi assassinado pelo louco que se
dizia fã. Quando chegamos ao lugar (não é um campo de morangos, só para
registrar) tinha uma banda com um pessoal de mais de sessenta anos tocando
Day Tripper. Eles não eram muito bons, mas tocavam com o coração. Vai ficar
na memória. Ah, e não pude deixar de comer um hot dog no parque. Não foi
nenhuma Brastemp, para falar a verdade, hoje comi um muito mais gostoso numa
cidade aqui perto. Mas comi um hot dog no Central Park! Quem diria, Sandra
Maria. Rendendo-se ao imperialismo ianque.
Ah,
e só para confirmar que eles são diferentes mesmo: fomos para lá no 4
de
Julho,
dia da independência. Eu já imaginava a patriotada tomando conta da cidade,
mas não teve nada que indicasse o motivo do feriado. Só a segurança que foi
reforçada, com polícia por toda a parte e mensagens no metrô para denunciar
qualquer atitude suspeita. De resto, parecia feriado de 9 de Julho ou Corpus
Christi em SP: todo mundo curte, mas ninguém sabe o que é.
Como
diz a música do Tony Bennet, deixei meu coração, não em San
Francisco, mas em New York. Um dia depois da volta (sem turbulências, eu
agradeci quase de joelhos o piloto na saída do avião), eu me peguei olhando o
mapa de Manhattan e suspirando de saudade, como uma adolescente apaixonada.
A cidade me pegou de jeito. Tanto que, em vez de ficar triste pelas coisas
que não vi, já estou listando o roteiro da próxima viagem (Chinatown, Little
Italy, zoo do Bronx, Harlem, museu Guggenheim...) porque acho que nunca mais
vou tirar férias e ir para a praia. Só espero – sou uma otimista incorrigível
– ouvir mais português nos museus e livrarias...
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26/06/2012
17:26 - publicado por Sandra Godoy
No reino da comilança
Nesta
semana completamos dois meses de América e, passada a babação inicial, a
gente vai se acostumando com a vida aqui. Continuo achando o povo de Michigan
muito legal, simpático, gentil, sempre repetindo uma, duas, três vezes as
frases que não entendemos - e são muitas! Em tempo: a culpa não é só minha de
não entender o que eles falam. Aprendi na aula de inglês que o sotaque daqui
é dificílimo de entender até para os demais americanos, sem contar que os
"michiganders" têm o hábito de comer palavras. Já aprendi algumas
expressões que só eles entendem, mas não vou ficar falando demais, porque
quero ser entendida na Califórnia, em Nova York, em Chicago... Consegui
escapar do dialeto na Áustria, vou conseguir fugir desse sotaque
também.
Falando
em comer, neste final de semana tivemos uma experiência digna de filme do A
Comilança, do Marco Ferreri - aquele que o pessoal vai a um restaurante e
come até morrer, literalmente. Eu já tinha notado que as porções são
gigantescas, quase tudo é frito, mesmo a salada vem imersa em molho Ranch.
Mas nada se compara à experiência no restaurante Tony's, onde é servido o
mais autêntico sanduíche BLT (bacon, lettuce- alface -, tomato) dos EUA. A
sugestão foi do nosso professor de inglês, sempre interessado em nos mostrar
a cultura ianque (acho que ele queria nos matar, desta vez). O pessoal do
programa Mythbusters, do Discovery Channel, esteve lá e comprovou o tamanho
do sanduíche. Vai passar em julho, aqui.
O
restaurante já é uma história à parte: cenário de road movie, com garçonetes
gorduchas, simpáticas e com mais de 50 anos. Música da melhor qualidade, como
Creedence, Bob Seger e uns country rocks que só tocam aqui, papel de
parede kitsch, ventilador de teto... E os clientes. Todos bem acima do peso,
muito acima do peso, pra falar a verdade. Começou a me dar medo. Aí veio a
garconete (simpática até a raiz do cabelo, um senhora de mais de 60 anos) e
nos sugeriu o sanduíche. Como estou nos Vigilantes do Peso (a única saída
para não explodir) pedi um mais light, de rosbife, sauerkraut e queijo suíço.
Gigantesco, mas não frito, o que já é uma grande coisa.
Roberto
e Helena foram de BLT. Vi o pânico nos olhos da minha filha que, mesmo
assustada com o monsto, enfrentou-o bravamente e comeu quase um terço dele.
Está há dias "conversando" com o sanduba. Roberto, com seu estômago
impressionante, quase sucumbiu, mas comeu boa parte. A garçonete
ainda veio, meio sem-graça, nos oferecer a sobremesa, nada menos que uma
travessa com uma montanha de sorvete e chantilly - parecia um vulcão de feira
de ciências. Mesmo eu, adoradora de açúcar, declinei para continuar viva.
O
mais impressionante é que enquanto nós revirávamos os olhos, o pessoal comia,
comia, comia.. Entrada, prato principal, sobremesa, tudo em proporções
ituanas. Claro que não se come tanto assim sem pagar a conta com o corpitcho:
parecia que estávamos em um refeitório de lutadores de sumô. Todo mundo
gigante, do tipo que não cabe na cadeira. Mas não pareciam se importar, não.
No final, para comprovar a "boa-gentice" do pessoal daqui, a
garçonete correu atrás de nós para dar um saco de balas para a Helena, sem
mesmo saber se tínhamos dado gorjeta ou não. Que linda.
Nesses
dois meses aqui temos resistido bravamente a tentações como essa do
BLT,
porque
a coisa é séria. Qualquer local público que se vá, chama atenção a obesidade
mórbida - muitos usam até carrinho, já. Não tenho nada a ver com isso, mas
alguma coisa precisa ser feita, porque a próxima geração não chega aos trinta
anos, não. A obesidade está criando um mercado perigoso, o das dietas
milagrosas. É só ligar a TV para ser bombardeado com dezenas de propagandas,
cheias de antes e depois. O problema é que a coisa começa na escola: o
almoço, segundo a Helena, é igual de filmes adolescentes, sem exagero. E é só
fritura. Pizza de montão, pra alegria da criançada. Até o pão vem pingando
óleo, diz minha ainda esbelta filha.
Tenho
compensado cozinhando em casa - raramente comemos fora - e fazendo tudo muito
saudável. Resultado: já perdi três quilos! Acho que sou a primeira pessoa no
mundo que vem para cá e emagrece. Mas dá um trabalho danado, isso dá. Saudade
do Degas e dos botecos da Pompeia, onde dá para comer sem virar um gigante -
e ainda tem caipirinha!
No
domingo, fomos conhecer Ann Arbor, a cidade universitária - tem duas
universidades - e fiquei com vontade de voltar a estudar. Mas só se fosse
aqui. Trabalhar de dia e fazer Metodista de noite, nunca mais! Fomos procurar
um festival de verão que tinha até site, mas não achamos nada, só um tal
festival da paz interior, cheio de hare krishnas, esotéricos, música de
tambor desafinado e um cara que dançava no meio da rua como se estivesse
tendo um ataque epilético. Zen demais até para mim.
Decidimos
ir até Detroit, onde estava tendo o Detroit River Days, um festival (outro)
criado com o objetivo de juntar dinheiro para conservar o rio. Idéia bacana -
aliás, isso é outra coisa boa: Detroit é decadente, tem sujeira na rua,
criminalidade e tudo mais o que a crise econômica traz, mas o pessoal não
deixa de brigar para melhorar a vida aqui, tem cada iniciativa de dar
inveja.
Aprendemos
que festival significa parque de diversão e muita comida frita e gigantesca.
Consegui, com muito esforço, descolar um hot-dog mais magro, acompanhado de
água, mesmo assim fez um estrago nas calorias diárias (ando muito
comportada). 95% do público eram negros: invocados e produzidos, como sempre,
divertindo-se a valer. Adoro ouvi-los falar, é de onde vem a música
maravilhosa que eles produzem.
Para
encerrar a semana de festividades, ontem fomos ver a queima de
fogos, de novo em Detroit. Tinha até comentarista na TV analisando a queima
(aqui eles comentam tudo, até jogo de palitinho). Mesmo com medo - a Motor
City à noite deixa a cracolândia no chinelinho - fomos até perto das torres
da GM, o símbolo da cidade, onde foi a festa. Claro que não saímos do carro,
vimos os fogos de passagem, mesmo assim foi bem legal. A emoção ficou por
conta do perdido que o Roberto deu ao desobedecer o GPS (um dia o aparelho
explode), e fomos parar em um cenário de filme policial dos anos 70 - só
faltava Starsky & Hutch aparecerem.
Salvos
das trevas, voltamos para nossa casinha geminada no subúrbio - ou burbs, como
o pessoal da D-City trata com desdém os cidadãos que vivem nas áreas próximas
à capital, mais ricas. Adoro Detroit, a cidade tem uma vibração parecida com
São Paulo - feia, suja e apaixonante - mas ainda sou amadora por aqui. Vamos
aos poucos.
Próxima
parada: New York, New York. Viajamos na sexta e voltamos na
quarta, em pleno 4 de Julho. Vamos como turistas, mas quero dar uma fuçada na
city that never sleeps, e ver se ela é tudo isso mesmo, e se os new yorkers
são tão grossos como o pessoal daqui fala. Alguém duvida?
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14/06/2012
23:26 - publicado por Sandra Godoy
A associação do cachorro morto e algumas estréias
Na
última semana tive algumas "primeiras vezes" aqui. Na sexta fui à
minha primeira Garage Sale. A história: meu professor de inglês (uma hora e
meia por dia, cinco vezes por semana, quase um santo) achou que seria legal
eu exercitar a conversation com os nativos num evento local. Qual? Garage
Sale! Tenho pra mim que ele me deu o golpe, aproveitou o horário da
aula para dar um perdido e ainda faturar uma grana em cima da turca (ou
mexicana, isto é America) aqui.
Nunca
vi tanta quinquilharia junta. O pessoal junta todos os cacarecos - cada
coisa, deveriam ter vergonha - que ninguém mais quer e os expõe na porta de
casa, com etiquetas de preço e tudo. Acabei comprando um livro do Harry
Potter para a Helena e um de receitas dos Weight Watchers (Vigilantes do
Peso, que estou seguindo depois de tentar até comer cacto para vencer a
banha), ambos por um dólar! Precisei me controlar a partir daí, porque fiquei
tentada a comprar uns colares horríveis de umas senhoras tipo Super-Gatas.
Sem contar que livro é pesado, estoura a cota da bagagem na volta. Vou dar um
jeito de despachar, porque tem muito que quero comprar, e esse negócio de
e-book ainda não me tocou (tenho medo de babar no iPad à noite e provocar um
curto-circuito...).
Enfim,
fui a várias casas em uma vizinhança parecida com a das
Desperates Housewifes (vade retro!), amarrei uns papos e aproveitei para
pensar porque não temos Garage Sales no Brasil. Primeiro - a maioria mora em
prédio, e se fizer venda na garagem, ninguém vai ver. Outra: acho que somos
um pouco orgulhosos em vender e comprar coisas usadas. Só no sebo ou
brechó, mesmo assim restrito a algumas comunidades, como Vila Madalena e
Pompeia, meu habitat no Brasil. A reflexão surgiu depois que meu
professor me questionou, daquele jeito: mas cooomo não tem?. Aí eu achei melhor
dar uma explicação que humilhou o ianque: disse que no Brasil a gente não faz
essas vendas de usados porque somos muito generosos e doamos tudo para o
Exército da Salvação. Ou então fazemos doações em família, que no meu caso é
a mais pura verdade, né primas? Ele engoliu e ainda ficou meio constrangido.
Bem-feito.
Outra
primeira vez foi no domingo. O pessoal daqui nos indicou uma cidade chamada
Frankenmuth, fundada por alemães, como visita imperdível em Michigan. Com a
imagem de Blumenau/Joinville na cabeça, encaramos uns 100 km até a
cidadezinha onde eu achava que iria falar alemão. De alemão mesmo só os
Willkommen das placas, e algumas bandeirinhas bem tímidas. O que chamava a
atenção era que, apesar de ser uma cidade, digamos, germânica, o que mais
tinha era bandeira dos EUA. Centenas. Olha a mensagem: vocês fundaram a
cidade, mas somos nós que mandamos, richtig (certo)? Nem no Memorial Day vi
tanta bandeirinha - nem em dia de jogo de Copa no Brasil, que é quando somos
verdadeiros patriotas.
Nesta
bucólica cidadezinha teuto-ianque (de araque) assisti à minha primeira parade
em terras americanas. Eu sempre tinha em mente a cena do filme "Curtindo
a Vida Adoidado", em que o Ferris Butler surge sobre um carro alegórico
cantando Twist and Shout no centro da cidade - a melhor cena de um filme
cheio de melhores cenas. Que nada. A parade era parte do Bavarian Festival,
uma festa anual para atrair turistas e vender pretzel com bratwurst (pão e
salsicha, entre nós), com uma cerveja bem mais ou menos.
Mas
a tal parade foi um desfile de patriotada, again. Como sempre tinha veteranos
de todas as muitas guerras, rainhas e princesas de tudo quanto é coisa, até
do feijão (como eu disse, a rainha da piada pronta), bandeiras, bandeiras e
mais bandeiras. O legal foi que eu vi aquelas bandas estudantis, marchando e
tocando (tinha até dancinha). No desfile, junto com representantes da
comunidade, comércio, associações de tudo, uma se destacou: a Associação dos
Cachorros Veteranos da Guerra do Vietnã. Eu estava fotografando sem prestar
muita atenção, aí vi o caminhão com uns dogs em cima (claro que eles não eram
veteranos da guerra, teriam uns oitenta anos!), e achei o máximo os caras
homenagearem os mais de 400 cães mortos em combate. De novo, melhor seria se
eles não precisassem ir, mas já que perderam a vida farejando vietcongues, vá
lá. Viraram heróis. Viva Rin-Tim-Tim!
Ontem
foi a nossa primeira vez saindo com um casal local, o marido é colega do
trabalho do Roberto. Pessoal sensacional, bem sensível aos perrengues pelos
quais estamos passando por aqui (não são muitos, mas todo dia tem um pequeno,
de conversar com o caixa que fala algum idioma a leste do Jordão ou Ganges,
até abastecer o carro sem frentista). Claro que ajuda o fato de eles terem
morado em Paris por três anos e em Luxemburgo (o país, não o técnico) por
outros tantos. Dificil foi entender o inglês de metralhadora do garçom,
explicando os "specials"(PFs) do dia. Aí dei o meu melhor sorriso
Samirinha, disse, sorry... e ele repetiu tudo, beeem devagar. Eu entendi
salmão, cogumelos e espinafre, e nesse que fui.
Foi
também a primeira vez da Helena com uma baby-sitter, filha do casal, que tem
19 anos e está estudando o que, na faculdade? Português! Claro que o
português dela é pior que meu inglês, para desconsolo da Helena, que teve que
botar o cérebro pra funcionar em inglês de novo, depois do dia todo na
escola, a pobre.
Também
aprendi que aqui se janta cedo (no máximo às sete), o jantar dura pouco e às
dez está todo mundo em casa, pronto para dormir. Para mim é ótimo, matutina
que sou (neste momento estou piscando duro, como diz minha mãe), mas é
engraçado ao lembrar dos jantares brasileiros que começam às dez e não têm
hora para terminar. A boa notícia é que o meu inglês foi elogiado, e acredito
não ter falado muita bobagem.
Falar
nisso, teve uma, esta semana, na YMCA, onde me matriculei para finalmente
fazer academia. Barato e com pessoal alto-astral (alguns bem velhinhos, fazer
o quê, é minha turma, agora). Aí, antes de começar as aulas, preciso fazer
uma entrevista com a personal trainer - exame médico não precisa, você se
reponsabiliza por escrito se cair duro no meio da sala - que será amanhã.
sexta. A Helena, meu orgulho, vai treinar natação e, quem sabe, participar de
competições. Minha peixinha. Então, como a entrevista será à noite, perguntei
se poderia levar minha filha (daughter) junto. Do jeito que eu falei, ela
entendeu Doctor. Ela me olhou com a maior cara de espanto e disse: Por que
você precisa trazer seu médico aqui? Eu comecei a
rir, e disse: daughter, daughter, twelve years old! Ela morreu de rir,
e me disse que entendia meu sotaque, pois é filha de italianos! Acho que
nunca mais vou errar a pronúncia. Pensou, trazer o médico do Brasil ia ficar
bem caro...
Aprendendo, aprendendo.
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04/06/2012 23:44 - publicado
por Sandra Godoy
Os manos, as minas - e o museu da Motown
Em
nosso primeiro dia de América do Norte, passamos por uma experiência e tanto:
cansados, com fome mas querendo já conhecer tudo de Detroit e cercanias,
fomos parar no primeiro supermercado que encontramos, na periferia da D, como
é chamada a cidade. Eu já estranhei só ter visto negros no estacionamento,
mas pensei ser coincidência (tolinha). Ao entrar no mercado, me senti como
naqueles filmes de blackexploitation (tipo de filme dos anos 70 nos quais, do
diretor ao figurante, eram todos negros), ao ver que éramos os únicos brancos
do lugar. Nem preciso dizer que o povo nos olhava como ETs, certamento se
perguntando: O que esses branquelos estão fazendo aqui? Se eles soubessem que
a gente era brasileiro, então, iriam ficar sem entender nada mesmo. Bom, o mercado
era OK, compramos nossos primeiros mantimentos (tudo errado, claro) e fomos
para casa com uma estranha impressão de que o pessoal daqui não se
mistura.
Após
mais de um mês vivendo aqui, ainda não tenho opinião formada
sobre a convivência interracial. Tenho observado algumas coisas: os negros
aqui são muito invocados, têm uma raiva às vezes que dá medo. São muito
conscientes do que seus antepassados sofreram e, acima de tudo, têm muito
orgulho da raça. Detroit atraiu muitas famílias negras no começo do
século passado, que vinham do Sul fugindo da segregação, esperando encontrar
prosperidade - e um pouco de sossego - aqui, com a indústria
automobilística que começava a engrenar, com perdão do trocadilho. Daí que
tem muito negro bem de vida por aqui, o que me alegra e entristece, vindo de
um país tão negro quanto mas com uma situação bem diferente - aqui, o negro
no carrão não é necessariamente jogador de futebol (ou baseball) nem
pagodeiro. Parece-me que eles vivem - brancos e negros - a frase que determinava,
hipocritamente, no começo do século 20, que eram "iguais, mas
separados". Mas ainda estou há pouco tempo para afirmar qualquer coisa,
e questão é muito mais complexa.
Então.
Ainda traumatizados com a experiência inicial com os manos do
mercado - ninguém olhou com simpatia para nós, pobres gringos recém-chegados
- decidimos que era hora de conhecer o Motown Museum, que eu conheci nas
minhas primeiras pesquisas sobre o lugar que seria nosso lar por seis meses,
ainda no Brasil. Adoro a Motown! Gosto demais daqueles grupos dos anos
sessenta, com todo mundo dançando e cantando igual, como os Temptations e
Supremes - sem contar o Jackson Five, ídolos da minha pré-adolescência, junto
com o George Harrison. Mas, confesso, eu estava com medo de chegar lá e dar
de frente com uns manos mal-encarados, nos olhando como: Quéqui cêis tão
fazendo aqui? de novo, e descobrir que o museu nada mais era do que um
caça-níquel cheio de quinquilharias sem valor histórico.
Enganei-me
redondamente. O museu fica na casa onde foi fundada a Motown Records, pelo
músico e empreendedor Berry Gordy que, em 1959, pegou 800 dólares emprestado
da caixinha da família, prometendo devolver em um ano, com juros de 6% (a
família tinha um tino comercial de dar gosto). Em cinco anos, ele já faturava
20 milhões! A receita era simples: recrutar os muitos talentos que viviam na
região, cantando na igreja ou em bares, dar um polimento neles (já tinha
personal stylist naquela época), administrar a carreira deles para não
acabarem como o pessoal do jazz e blues, drogados e sem dinheiro, e abrir
espaço para a criatividade. Assim nasceram os Four Tops, The Temptations,
Jackson Five, Marvin Gaye, Stevie Wonder (que precisou terminar o colégio
para poder trabalhar lá) e muitos outros que mudaram a história da música
negra e universal.
A
Motown Records era composta por um conjunto de casas chamado de
Hitsville, numa rua de Detroit. Não porque o Berry quisesse: é que, como ele
era negro, não podia comprar grandes propriedades nos anos 50. Mesmo faturando
milhões. Ele só foi comprar um prédio muito tempo depois, quando os
tempos ficaram um pouco mais leves. Vai entender.
O
mais legal - e, dentro da série de tapas na cara que tenho recebido desde que
cheguei - é que 99% dos visitantes (museu lotado) eram brancos. Além de nós,
brazucas (e não fomos os primeiros, segundo o recepcionista simpaticíssimo
que nos acolheu), tinha gente do país todo, além de um casal canadense. Todo
mundo com cara de embasbacado, todo mundo com cara de quem amava música.
O
guia era uma atração à parte. Além de contar a história da gravadora e seus
artistas - com muito bom humor, num inglês que eu tive que usar toda minha
concentração yogue para entender - ele cantava, com uma voz maravilhosa,
trechos das músicas. Como eles dizem aqui, awesome! E todo mundo cantava
junto. Famílias com cara de caipiras, um gordão com cara de dono de loja de
disco, uma senhora negra que pelo jeito vai toda semana (ela disse que
encontrava o Stevie Wonder na rua!) levando a neta com cara de enjoada,
nós... Foi muito legal, inesquecível mesmo. Tinha até a luva e o chapéu
usados pelo Michael Jackson - que ele doou junto com um cheque de 125 mil
dólares - roubados (a luva e o chapéu, não o cheque) por um fã, depois
recuperados graças à recompensa (americano gosta disso) oferecida por um
rapper poderoso, tipo 50 Cent ou Jay-Z.
Tinha
roupas do Marvin Gaye, aquele que o pai matou (história: a justiça não julgou
o pai, pois ele tinha um tumor no cérebro, achavam que ele iria morrer logo.
Demorou onze anos, sofrendo todo dia por ter matado o filho, bem-feito), e
que era amado pelas mulheres. Let´s get it on ficou o resto do dia na minha
cabeça.
Enfim,
foi um passeio e tanto, daqueles que a gente jamais faria se não estivesse
vivendo aqui (ninguém vem passar férias em Detroit, é igual SP, só a
trabalho). No domingo tinha a Village Fair aqui na minha cidade (que fica a
meia hora de D) e eu achei bem sem-graça. Era uma quermesse, na verdade, com
muita comida porcaria e, como eles são quem são, os brinquedos davam de dez
em qualquer Hopi-Hari ou o finado Playcenter. Gigantes. Fiz fotos, mas nem
vou publicar, não achei relevantes. Tinha muito branco, mano. Acho que é
porque eu ainda estava na ressaca do rythm'n blues..
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30/05/2012
23:17 - publicado por Sandra Godoy
Na casa do Barack
Quis
o destino que eu fosse parar em outra grande celebração norte-americana neste
final de semana, depois do baseball: o Memorial Day, o dia em que se
homenageia os mortos nas muitas guerras nas quais os EUA se enfiam. E
comemorado em grande estilo, na capital, Washington D.C.. Na verdade, a idéia
era aproveitar o feriado da segunda-feira e conhecer a cidade onde mora o
Obama, já que ir para Nova York, só de avião e bem mais caro. Mas ainda
vamos.
Destino
decidido - e pago - descobrimos que o Google Maps nos enganou: em vez das
seis horas previstas, foram nada menos que nove horas de estrada. Tudo bem
que são estradas norte-americanas, longe das Autobahn alemãs, mas ainda assim
muito boas, sem nenhum engraçadinho: caminhões rodando na faixa que lhes é de
direito, motoqueiros comportados e toda aquela educação anglo-saxônica. Vai
ser difícil a readaptação.
Outra
que descobrimos: o GPS enlouquece em Washington. Estávamos quase
chegando - imagina um gringo chegando ao Cebolão -, seguindo cegamente as
ordens do aparelhinho e, de repente, sem mais essa, ele trava, nos manda para
outra estrada, sai do ar. Isso às 11h da noite. Fomos parar em uma estrada
deserta, e resolvemos usar nosso velho e bom faro pré-GPS. E não é que
funcionou? Quando chegamos a uma avenida habitada, desligamos tudo e ligamos
de novo. Aí funcionou. Mas deu pau o fim de semana todo. Tenho cá pra mim que
é a quantidade de satélite de vigilância que tem sobre a cidade o motivo do
surto do aparelho...
Cidade
linda, com ares europeus, bem diferente do que eu imaginava (cidade de
burocratas, prédios soviéticos/brasilienses, ninguém na rua no fim de
semana). Museus no atacado, para todos os gostos, e quase tudo de graça. A
Helena enlouqueceu no Museu de História Natural (o do filme Uma Noite no
Museu 2), e eu no Newseum, o museu do jornalismo - inacreditável o valor que
eles dão para a liberdade de expressão (pelo menos no oficial) - que tinha
até uma antena resgatada dos escombros do World Trade Center (de arrepiar a
sala da cobertura da tragédia). Também tem bares com mesas na calçada, gente
bonita, todo mundo na rua e um bairro chamado Georgetown que é o
que a Vila Madalena quer ser quando crescer. Amei cada pedaço da cidade.
Claro
que conhecemos também os monumentos tradicionais: Memorial do Abraham
Lincoln, do Thomas Jefferson, do Martin Luther King (onde só tinha mano, por
que será?), da Segunda Guerra, do Vietnam... Aí percebemos, ainda no sábado,
que tinha motoqueiro demais na cidade, todos contemporâneos do Dennis Hopper
e do Peter Fonda no meu filme favorito de todos, Easy Rider. Sério, os caras
tinham em média setenta anos, todos de bigodão, jaqueta de couro, a patroa
(velha como eles) na garupa. Pessoal invocado. Aí soubemos por um - mais um -
americano bacana, velho também, que se ofereceu para tirar uma foto nossa,
que no Memorial Day tem um encontro dos "motoqueiros veteranos do
Vietnam", que vêm todos os anos para pedir mais benefícios pelos anos de
batalha - muitos vivem disso, já me disseram... Mas foi incrível, tinha
milhares, que, claro, fizeram uma "parade" no domingo pelas ruas -
tudo bloqueado, trânsito desviado, o de sempre - para exercitar a rebeldia
antes de voltar para cuidar dos netos. Fiz fotos das figuras - escondidas,
porque a cara deles dava medo - para ninguém dizer que estou inventando.
Aí
chegou a hora do Concerto do Memorial Day. Já tínhamos percebido
- e estranhado - o pessoal cumprimentando os velhinhos nas ruas, nos
memoriais, em toda parte. Falavam: thank you, thank you, para todo mundo em
cadeira de rodas (de qualquer idade). Mas na hora do concerto foi quando
percebemos o quanto esse povo daqui é patriota - ao extremo, para mim - e o
quanto eles acreditam que sua missão é salvar o mundo dos vilões (os nazis,
os vietcongues, os comunistas, o Saddam, o Bin Laden, cada hora tem um) e
como é forte a idéia do herói.
Não
concordo, acho que seria mais fácil - e menos doloroso - não ter guerra para
mandar os coitados morrerem mas, enfim, respeito. Afinal, estou de visita, e
não é de bom-tom falar mal do anfitrião (que nos recebeu muito bem até agora,
diga-se de passagem).
Mas
é estranho. Fomos a um concerto no Capitólio (o senado daqui, aquele prédio
que parece o Vaticano), porque a Helena queria ver a Jessica Sanchez do
American Idol e eu, a careta, a Orquestra Sinfônica Nacional. Tinha umas
cinquenta mil pessoas ou mais, todas embandeiradas como brasileiro em Copa do
Mundo, mas todos com uma expressão de gravidade e comoção genuína. Quase
chorei de novo no hino nacional deles (já estou ficando com vergonha da minha
falta de caráter), cantado pela Jessica - que não vimos, de tão longe que
ficava o palco, e foi dispensada rapidinho para não mais cantar. Aí veio a
patriotada: um cantor country, um grupo de rock, uma atriz interpretando
(chorando) uma carta de uma viúva, o Colin Powell (é, o general), todos
falando da necessidade de defender o país e a liberdade, a democracia... Faz
parecer que é um bom negócio morrer pela pátria, porque aí você vira herói.
Muito estranho.
Como
nunca passamos por tantas guerras - e recentes, como eles -, fica difícil
entender. Mas fiquei de boca bem fechada, porque na comemoração não tinha
negro nem branco (normalmente ficam beeem distantes uns dos outros), tinha
era norte-americano chorando seus mortos.
De
repente, depois de mais uma música chorosa sobre a importância de tomar um
tiro de um taleban para salvar o mundo, subiu uma senhora ao palco e anunciou
com toda a gravidade que havia fortes informações de que "severas
condições climáticas" se aproximavam da cidade - isto é, furacão, ou
pelo menos uma tempestade daquelas (eu já tinha visto na TV que tinha uma se
formando no Atlântico). Ela disse que quem quisesse ficar, tudo bem, desde
que se escondesse. Tá bom. Como morro de medo do clima daqui (porque no
Brasil não tem nada disso, haha), saí antes de ela terminar o aviso. Eu e
49.990 pessoas. Todo mundo, sem pânico nem atropelo, organizados, indo embora
para se proteger da tormenta.
Fomos
correndo até o carro - que logicamente estava o mais longe possível - e mais
ainda para o hotel. No final, nem choveu tanto, foi até uma chuva fraca para
os padrões paulistanos. Mas, para quem já encarou um Katrina na vida, como
eles, qualquer garoa é furacão.
No
dia seguinte, o Memorial Day mesmo, teve homenagem do Obama (que não foi ao
concerto, embora more a duas quadras do Capitólio - certo é ele, o mano
Baracka) a um monte de veteranos, e mais celebrações.
Não
ficamos para ver. Foi uma experiência importante para o meu projeto de
tentar, pelo menos, entender um pouco da alma deste povo, mas saímos logo
cedo que tinha Maryland, Pennsilvania e Ohio para desbravar antes de voltar
para a sweet home Michigan - terra da Madonna! Não é que eu já estava com saudade?
Próxima
parada: Museu da Motown, a gravadora que trouxe ao mundo o melhor da soul
music e rythm & blues do Universo, que fica numa casinha na periferia de
Detroit. Vamos ver se os manos de lá não nos expulsam. Acho que seremos os
primeiros brancos a pisar no museu, pelo que já percebi da
integração racial daqui - tema de um próximo post, com certeza.
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21/05/2012
16:17 - publicado por Sandra Godoy
Descobrindo os segredos do baseball
Neste
final de semana fomos tentar decifrar um dos grandes mistérios da
América do Norte: o baseball. Já tentei entender as regras do esporte milhões
de vezes, quando queria ser jornalista esportiva, sem sucesso. Quem sabe ao
vivo não seria diferente?
Fomos
assistir ao time local, Detroit Tigers, contra os Pittsburgh Pirates. Não
tínhamos noção da qualidade dos times - e isso importava? - mas fomos de
mente aberta, já gostando de tudo. E no final, descobrimos que o jogo é o que
menos importa, pois a torcida só se levantou nas duas últimas tacadas (?), já
que o time da casa estava perdendo (isso entendemos pelo placar...). Mesmo
com a derrota, todo mundo saiu feliz.
Explico:
o jogo de baseball é uma grande festa. Começa na entrada do estádio. O fato
de ser quase verão ajuda bastante, todo mundo já vem no clima de comemoração.
Ah, claro que tem muita comida e cerveja, o que estimula a animação do
pessoal. Os corredores do estádio, antes de chegar aos bancos, são uma
verdadeira 25 de Março: vende-se de tudo, de bonés a bichos de pelúcia. Lá
dentro a festa continua: a galera chega com seus hotdogs, nachos e pizzas,
que eles não têm a menor vergonha de comer em público e do jeito mais
escandaloso possível, e cerveja, muita cerveja. Dá para notar o efeito no
decorrer do jogo (afinal, são quase três horas...), todo mundo vai ficando
mais amigo, mais simpático, mais engraçado.
O
telão é uma atração à parte: ele torce junto com o público. Sem contar que
tem um DJ no estádio, que toca uma música cada vez que a bola vai para a
torcida (ia o tempo todo, acho que nosso time não é muito bom), e quando cada
jogador do time vai rebater! Juro que nos esforçamos ao máximo para entender
o jogo, mas o que ficou é: um cara arremessa, o outro tem que rebater; quando
este rebate certo, tem que correr as bases (o chamado home run) que é ponto.
Deve ter mais outras regras, mas a gente achou que esta é a mais importante,
já que era quando a torcida se ligava de novo no jogo. No mais, uma grande
confraternização: teve homenagem aos primeiros jogadores negros da liga de
baseball, mil promoções nos intervalos - e como tinha! - e, no final, nem
parecia que o time tinha perdido... Precisamos aprender isso no Brasil.
Outra
coisa de matar: o hino nacional. O estádio todo se levanta, todo mundo tira
tira o boné e canta o hino com uma energia difícil de não ser contaminado.
Quem cantou foi um grupo gospel, com uma solista daquelas de fazer inveja à
Aretha Franklin. Quando vi, estava com os olhos cheios de lágrimas - que
vergonha, chorar pelo hino dos outros.
Ao
chegar em casa, recebemos um email da liga agradecendo nossa presença e com
os melhores momentos do jogo - incrível como se faz marketing de tudo
aqui. Foi aí que a gente entendeu alguma coisa: repetindo as jogadas, ouvindo
as entrevistas e os comentários. Mas não vou esforçar demais para entender,
não. Quero é voltar para a farra. O jogo é apenas um detalhe. Go Tigers!
Ah,
e também espero comer como os nativos na próxima, que deixamos para o final
do jogo e quando chegamos às barraquinhas, estava tudo fechado! Deu lombriga.
Na
semana que vem vamos para Washington, visitar o compadre Obama no Memorial
Day (o feriado que homenageia os mortos nas guerras deles - que não são
poucas, como sabemos). Vamos ver como será por lá. Eu quero mesmo é ir aos
museus, que tem uma centena, tudo de graça! A Helena está adorando...
15/05/2012
No SUS daqui
Na semana passada tive minha primeira experiência com o
sistema público de saúde daqui. A Helena precisou tomar mais uma dose
de vacina - ai, o medo dos nativos de que ela inicie uma epidemia de ebola...
- e eu fui dar uma assuntada para saber se saía de graça. Já que era
exigência deles... Fui simplesmente pedir uma informação, quando vi já
estava com minha filha cadastrada no SUS daqui.
Enfim, embora tenha passado quase duas horas lá, fui bem
atendida, fiquei sabendo que nós, brasileiros, somos latinos, mas não
hispânicos - aleluia! - e não fiquei nada constrangida de estar no meio dos
pobres daqui (90% do pessoal da fila). No final, a Helena já estava agendada
para a vacinação, pela qual paguei a fortuna de cinco dólares!
Fora o habitual amarelão que dá nela toda vez de tomar uma
picada, correu tudo bem, ainda ganhamos uma dose de anti HPV de brinde! A
explicação da enfermeira foi uma aula, que deveria, aliás como o atendimento
desde a hora em que eu cheguei, ser material de treinamento nos SUS do
Brasil. Sei que parece deslumbramento de brasuca, mas fiquei triste em
comparar com o similar nacional.
A escola da Helena também é pública, e está dando de goleada. Além de ela ter um excelente nível de ensino, tem
atividades paralelas, como aula de natação (educativas, pra molecada não se
afogar no verão), cursos nas férias, aconselhamento e, o melhor, como é uma
escola que tem o programa ESL (English as Second Language), minha filha está
tendo a oportunidade de ter colegas russos, iraquianos, espanhóis,
franceses... O que o pessoal gasta uma fortuna para ter em internatos suíços,
nós temos aqui de graça! A Alena, por exemplo, nossa vizinha de condomínio, é
uma adorável garota russa que vai e vem no ônibus e está na mesma classe da
Helena - hoje vou levá-las para comer doces na downtown - vai sair
caro.
Aliás, a Helena está adorando a escola daqui. Tem saudades do
Vera Cruz, claro, mas sua adaptação tem nos surpreendido, dia a dia. Ela já
esta falando um inglês respeitável, e entendendo cada vez melhor. Ontem
fez lição de ciências e estudos sociais, tudo em inglês, mas como se
estivesse fazendo em português. Aliás, acho que ela está adorando não ter
aulas de português, para minha tristeza...
Ter vindo para cá está me fazendo calar a boca sobre um monte
de coisa que eu falava de americano. Até agora só encarei um mal-educado. Os
demais são solícitos, amáveis e não hesitam em repetir quando a gente não
entende.
Tenho tido momentos de Samirinha. Explico: quando eu morava na
Áustria, tinha dias que eu acordava sem conseguir articular uma frase em
alemão - era a síndrome de Samirinha, a turquinha. Aqui, cheguei Samirinha.
Meu inglês está pra lá de enferrujado, como pude constatar.
Mas isso a gente vai resolver, que a empresa do Roberto vai
pagar por um curso diário para nós, particular! Isso porque a gente não sabia
e eu quase me matriculei no Berlitz - depois de ter alugado uma consultora
por quase uma hora, maltratando os ouvidos dela com meu ingrêis, liguei no
dia seguinte e disse que não ia fazer porque iriam me pagar. Nota: o curso de
um mês do Berlitz custava 2.400 dólares! Claro que eu não ia fazer, prefiro
gastar no outlet. Mas agora vou ter teacher em casa, todo dia. O duro é que
quando eu começar a aprender, já vai ser hora de voltar...
Desisti de fazer academia e yoga aqui, faço ambos by myself -
também optei pelo outlet. Alías, voltei a correr ontem, a língua batia na
barriga, mas já foi um começo. Outra hora eu conto da comida daqui (outro
mito derrubado). Vou buscar a Lê. Ainda não consigo deixá-la vir sozinha do
ponto de ônibus até aqui. Coisa de latino...
06/05/2012
Bârmanhámmm!
Esta é a pronúncia da cidade onde vamos morar nos próximos meses. Quem
ensinou foi a moça da Herz, ao alugar o carro, ainda no aeroporto. Mas acho
que ela estava zoando a gente, porque os colegas do trabalho do Roberto se
mataram de rir. Nota: a moça da Herz, a cara da mãe do Chris (aquele da
série, que todo mundo odeia), fala o tal "Black English", um idioma
à parte, segundo os locais. Mas estamos nos divertindo com a pronúncia.
Tambem gosto de falar Di-truóit, quando vamos para a cidade grande.
Tudo foi muito difícil até chegar aqui - nem falo mais das trapalhadas do visto -, a começar do aeroporto, em São Paulo. Zorra total, filas enormes, funcionários azedos. Paguei o mico habitual no detetor de metal, ao ficar sem sapato, sem jaqueta, sem cinto, e o diacho apitando sem parar, e quase pegamos o avião na corrida. Voo tranquilo, quase sem turbulência, num avião meio sucatão, da Delta, com aeromoças que pareciam garçonetes da Oktoberfest - não sei como passavam pelo corredor... Depois da nossa aula de inglês no aeroporto, chegamos à bela Birmingham. Parece cenário de série da Disney: casas arrumadinhas, grandes áreas verdes, jardins maravilhosos, o centro da cidade é chique de doer, cheio de cafés e lojas charmosas... O incrível é que a quinze minutos daqui é Detroit. Apaga tudo. No primeiro passeio, me senti na cracolândia - juro, vi gente fumando pedra -, mas como somos paulistanos, tiramos tudo de letra. Demos uma big volta e fomos para nosso novo lar americano, num condomínio de casas de tijolinhos. Deixa a Áustria e seus gerânios no chinelo! Na segunda-feira começou a pancadaria e, se dependesse dessa primeira impressão, já teríamos voltado pro Brasil. Explico: o responsável pela inscrição de alunos novos nas escolas públicas da cidade nos recebeu com uma cara de fazer o mais azedo alemão parecer um gentleman. O cara simplesmente não queria matricular a Helena para estudar um mês e meio mas, depois de toda a nossa conversa - e no nosso inglês de segundo dia, quer dizer, o do Roberto, que eu ainda estou nóis vai, nóis vem - de quer queremos que nossa filha conheça e absorva a admirável cultura ianque, etc. ele permitiu, mas não deu um sorriso sequer. Como somos treinados na Deutschland e Österreich, não baixamos a cabeça e saímos sem dizer tchau. Mas foi só esse que foi grosso conosco. O pessoal daqui é bem legal, paciente, repete quando a gente não entende e sorri bastante. Uma coisa engraçada é que durante a semana bati um papo muito animado no escritório de tradução das vacinas da Helena (pois é, pra matriculá-la aqui não precisou de certidão de nascimento nem passaporte, mas tivemos que mostrar que ela não vai contaminar os nativinhos com alguma peste tropical), em alemão! A secretária, Frau Erica, uma senhorinha adorável que elogiou meu Deustchsprache, mas não falou nada do inglês... Prosseguimos a semana com alguns passeios, alguns foras e muitas risadas. A Helena surtou com o outlet perto daqui, o Roberto achou camisas do tamanho dele sem precisar procurar no fundo do estoque e eu sinto que vou precisar fazer muita Yoga para me controlar. Na quinta, duas boas notícias: telefone, internet e TV instaladas e a Helena matriculada na Berkshire Middle School, uma baita escola, segundo os dois (eu não fui, fiquei com o mano da instalação das comunications, que veio no mesmo horário). Ela amou, começa amanhã, vai ser bem legal, tenho certeza. Roberto já começou o trabalho - na sexta... - e se surpreendeu com a gentileza e o bom-humor dos colegas (o que a Europa não faz com a gente). Já fizermos dois super-passeios de fim de semana: Detroit Zoo (claro!) e o Henry Ford Museum. O zoo não era nenhuma brastemp, mas tinha uma atração que valeu todos os dólares: o urso polar! Fizemos fotos lindas (quer dizer, Helena fez) num túnel que fica sob a água - o bichão nadando por cima da nossa cabeça foi demais! Hoje fomos ao Henry Ford Museum, bem bacana, com tudo quando é tipo de carro - não só os da marca - e transportes em geral. É um museu para quem gosta de ciência e de coisas feitas pelo homem, como eu. Até a limusine onde o Kennedy foi executado está lá. Não tinha múmia, não tinha quadro nem escultura, mas tinha... o Titanic! Sério, está acontecendo uma exposição com o que encontraram do navio no fundo do mar. Impressionante, mas muito, muito triste. Tinha toda a história, do projeto (que não deu muito certo, como sabemos) ao naufrágio, com várias histórias de famílias que não chegaram ao destino. A energia não era muito boa, mas valeu a experiência. Foi como quando eu fui ao campo de concentração em Munique. A partir de amanhã, começo a tocar minha vida, já que o Roberto começa de verdade o trabalho e a Helena goes to school. Vou ao Berlitz tentar um curso que avance pelas férias, porque tudo aqui acaba em 18 de junho. Também vou procurar academia (preparem as risadas) e Yoga (preparem mais ainda, que imaginou eu entender errado a postura e ficar de cabeça pra baixo sobre um dedo?) e vou conhecer a cidade e arredores. Depois voltar pra casa rapidinho e fazer o jantar . Quem diria, Sandra Maria, virou housewife... 26/04/2012 Na cabeceira da pista, prontos para a decolagem
Então,
agora vamos. Apesar de ter recebido somente um visto - o meu! - é certo que
embarcamos sábado para Michigan. Vamos morar em Birmingham, o Roberto vai
trabalhar em Troy, tudo colado na big city Detroit.
Como eu já disse, moraremos em Alphaville, o Roberto trabalha em São Caetano e vamos no fim de semana para São Paulo, só que nos Estados Unidos! Estamos os três ansiosíssimos há meses, mais agora nas últimas semanas, com o despede-não-despede por conta do visto que não chega. Já virei piada na academia, na Yoga, na escola - o pessoal olha para mim e solta o bordão: "e aí? quando vai?", e eu desato a contar as desventuras... Tem gente que está querendo me levar a nado pros EUA, só para se ver livre de mim. Mas falta pouco. Vou tentar atualizar sempre que possível o blog, mostrando um pouco desta minha nova aventura pelo Hemisfério Norte. A primeira, há vinte anos, na Europa, foi pouco documentada pela falta de tecnologia (internet era ficção científica). Agora, tudo mudou. Detroit vai ser Detroy, para rimar com Godoy (os Ferreiras que me perdoem, mas não dava rima boa...). E assim vou contando umas histórias. |

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