O outono começou há menos de um mês por aqui e já deu para ver que - também nisso - os EUA não são fracos. A gente já vinha notando nas ruas aqui perto de casa a mudança das cores, fiz até fotos, mostrando árvores vermelhas, douradas, marrons. Claro que quando a gente comentava com o pessoal daqui eles falavam: Ah, sim, o outono..., porque os olhinhos gringos já se acostumaram com a beleza. Agora, nós, paulistanos, que só temos duas estações - o calor de matar com temporal e o frio de matar com seca -, ficamos de boca aberta, só emitindo sons como: olha!, nossa!, uau!. Aliás, já batizei o outono de Michigan como a estação do uau. Pronto.
Apesar de toda a lindeza das ruas e avenidas aqui de Oakland (o condado onde fica minha cidade), todo mundo falava que a coisa pega mesmo é no norte. Já tínhamos ido para as praias do noroeste, no final do verão, e vimos lugares lindos, chiques e a duna que, para minha tristeza, era maior que a de Jericoacoara - sempre desconfio das maiores coisas do mundo daqui, já escrevi sobre esta mania deles.
Como não gostamos de repetir viagem - só Chicago, que foi para tirar a cisma - decidimos ir para o nordeste de Michigan, o lado primo-pobre dos Great Lakes, com a intenção de encontrar o outono. E encontramos já na freeway, com uns aglomerados de árvores que anunciavam o que viria.
Nosso destino inicial era Alpena, e o caminho não podia ser mais lindo. Aliás, nesta viagem seguimos à risca a máxima budista do que mais importante que o destino, o que vale é a jornada. Mais ou menos por aí, não sou uma budista exemplar. Nunca vi uma jornada tão colorida em minha vida. A combinação de diferentes espécies de árvores nas curvas da estrada é um espetáculo quase sem igual.
O único problema é que ao chegar em Alpena, pensamos que a cidade tinha sido dominada por zumbis. Vazia, vazia, vazia. Também, o frio estava batendo forte, com o vento do Lake Huron dando de frente - acho que chegou a zero. Depois de fazer o check-in no Holliday Inn local - mais uma pechincha, e que teve um brunch no domingo que estourou todos meus pontos da dieta - fomos explorar a região, que na verdade, tinha pouco a mostrar, aparentemente.
Digo aparentemente porque se a cidade era fantasmagórica, a natureza não economizou nas redondezas. Graças a um fantástico e raro guia de Michigan que compramos em NY - nem aqui tem - achamos um lugar chamado Presque Isle (quase uma ilha, em francês, cuja influência aqui é imensa, mas eles não gostam que a gente fale), com dois faróis antigos (vou acabar fazendo um livro sobre as lighthouses daqui, tantas são) e que termina, literalmente, no lago. Mas não é um lago qualquer, é o Huron, gigantesco e, como ventava com gosto, ficava igualzinho mar do Nordeste brasileiro, com ondas bem grandinhas, só que de água doce e o maior frio do mundo. E com um arco íris maravilhoso.
Depois de muitos oh! e nossa! pelo caminho, fomos experimentar a culinária local - eu, já com medo da pimenta, que anda fazendo um bom estrago no meu aparelho digestivo. Fomos parar no Big Boy, uma das mais tradicionais redes de hamburguer daqui , e que tem como cliente mais fiel o Sheldon, da série The Big Bang Theory. Felizmente, não tinha pimenta - claro que eu mandei tirar o molho do meu hamburguer, não sou boba - e, para comemorar, pedi de sobremesa a minha primeira pumpkin pie aqui em cima. Eu andava babando nos supermercados e docerias, estava com medo de atacar uma torta inteira de uma vez - e baubau quilinhos perdidos com tanto sacrifício. Para quem nunca comeu, o recheio é um doce de abóbora - que eu adoro, aliás - mais compacto, feito com canela, cravo, leite evaporado, baunilha e os segredos de cada um. Com uma generosa dose de chantili por cima, para acabar de matar.
Depois do já citado brunch dominical - só voltei a comer às 4h da tarde - fomos em direção ao norte total, para a ilha de Mackinac. A pronúncia é maquinó, indígena, não escocesa, como eu pensava - aliás, foi lá que vi os primeiros nativos americanos no estado que tem boa parte das cidades batizadas com nomes como Shiawasee, Tecumseh e até Paw-Paw. Mas, voltando, a ilha é um dos destinos turísticos mais conhecidos do Meio-Oeste - e eu já desconfiando que era mais uma roubada...
Ainda bem que me enganei. Para chegar à ilha, a gente tem que deixar o carro no estacionamento na cidadezinha de St. Ignace (outra francesa) e tomar um ferry, na verdade um barcão com um motor de submarino nuclear, tão forte que empinava a frente, igual ao barco do Wally Gator. Na ilha não podem circular carros, motos, caminhões nem ônibus. Só bicicleta, carruagem e cavalo. Não sei se por conta da quantidade exorbitante de esterco equino, nunca vi flores tão lindas e vigorosas, nem na Áustria. O cheiro também é outra história.
A ilha é conhecida por ter sido o cenário do filme mega-hiper-supra-romântico "Em algum lugar do passado", aquele que o superman Christopher Reeves volta no tempo para viver um grande amor. O Grand Hotel - dizem ser mil dólares a diária, só para conhecer custa dez - é o prédio mais famoso, mas claro que tem também um forte, uma "missão" indígena e toda aquela coisa histórica que americano adora. Eu prefiro ficar com o filme de amor, explorado ao máximo em todas as lojas de suvenirs - que é só o que tem - da ilha. Outra fama da cidade são os fudges, um doce parecido com brigadeiro, só que em barra (igual doce de leite que vende em posto do interior), com milhares de sabores, produzido ali, na hora. Magistral.
Voltamos no barcão, com certeza estava abaixo de zero, e ainda pegamos um por do sol de arrepiar no caminho. O mais engraçado é que depois desta viagem, a paisagem aqui perto ficou tão sem-graça... Agora nós é que falamos: ah, sim, o outono. (Mesmo assim, hoje me peguei de boca aberta com uma alameda de árvores cor de fogo no caminho do trabalho do Roberto).
Na semana passada também fomos ao nosso primeiro jogo da NBA e à "maior-loja-natalina-do-mundo", mas estas eu conto depois, que este post já está muito grande por demais, como diria minha Nonna.
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