domingo, 30 de setembro de 2012

Chicago, again



Existem dois temas recorrentes no cinema americano: a redenção - normalmente do bad guy para herói - e a segunda chance. Este último eu resolvi adotar para a cidade de Chicago, que visitei há dois meses e, como escrevi aqui mesmo, não me empolgou muito, não, apesar do Aquário e do Instituto de Arte, sensacionais. Como as opções de viagens curtas - e legais, principalmente - estão se esgotando aqui neste Meio-Oeste de meu Deus, resolvemos tentar de novo a Cidade dos Ventos no último fim de semana.

E quanto vento. Bem na sexta-feira chegou uma frente fria daquelas, do Ártico (deixa as da Argentina no chinelo), e nos pegou totalmente desprevenidos. Fui com um casaco comprado na Renner para o frio do Brasil, que se revelou uma blusinha de renda para enfrentar o vento gelado de Illinois. Orelhada total, como se eu já não tivesse vivido nos Alpes. Enfim, depois de passar um frio danado, voltei para o hotel e encarnei uma cebola básica, com todas as blusas que tinha levado. Com a Helena não teve jeito - tivemos que comprar um casaco, antes que ela trouxesse uma pneumonia como souvenir de Chicago.

Fora o frio - que tem lá seu charme - descobrimos uma nova cidade nesta segunda vez. Não que ela tenha mudado alguma coisa, mudamos nós. Para começar, de perspectiva. Primeiro: em vez de ficar num hotel perto da Greektown, longe do centro, ficamos na Michigan Avenue - conhecida como a 5th Avenue daqui - , numa pechincha inacreditável do site de viagens. É assim: você reserva o hotel no escuro, só sabendo a localização. Depois de pagar a reserva, você fica sabendo onde é. E o nosso foi, sem dúvida, o melhor daqui até agora, e melhor até do que alguns resorts metidos do Brasil. 

Resolvido o hotel, meio caminho andado. Literalmente. Pudemos fazer quase tudo a pé e sem se cansar até morrer, como da primeira vez. A segunda mudança de perspectiva foi decidir que desta vez, em vez de olhar para cima, iríamos olhar para baixo. Já no sábado de manhã encarei meu medo de altura e de uma crise de labirintite e fui andar de roda gigante no Navy Pier - um lugar que eu só tinha visto do barco. E não é que nem fiquei com medo - só um pouquinho, vá - nem tonta - só o habitual. Mas foi muito divertido.


Da roda gigante fomos ao motivo - ou desculpa - para a viagem: a Expo Chicago, uma mega exposição com o que há de mais moderno em arte e design no país (claro que eles falaram "no mundo", porque são quem são). Mesmo com algumas obras bem questionáveis - tem coisa que eu resisto a aceitar como arte -, o resultado foi ótimo, principalmente para a educação do olhar da Helena, que já está analisando obras como gente grande - e lembrar que quando chegamos ela não queria nem passar perto de um museu... Já valeu todo o passeio, mas ainda tinha mais.

Depois de maltratar de novo meu corpo com a apimentada comida americana - comida baiana virou macrobiótica, para mim agora - descobri a minha-nova-banda-favorita-de-toda-minha-vida. Neste mesmo fim de semana estava acontecendo um festival de world music na cidade. Como eu escrevi no último post, tudo que tem o nome fair, fest ou festival me dá arrepios, que é roubada na certa. Que nada. Pelo menos o show que vimos no píer. A banda chama-se Delhi2Dublin, e é a mais perfeita tradução de world music. Músicos indianos, um guitarrista - que tocava cítara! - coreano, uma violinista/cantora loira e uma mistura fantástica de ritmos indianos, árabes, música celta, rock, reggae, hip hop. Falando assim parece uma bagunça total, mas o resultado foi uma música contagiante, todo mundo foi dançar - aliás, adoro ver os americanos soltando o corpo sem nenhuma coordenação em qualquer tipo de show, eles são os maiores caras-de-pau do planeta. Tão legal quanto a música era ver a alegria com que os músicos tocavam. Já vi mil vídeos deles no Youtube, vou fazer campanha para o Sesc levá-los para o Brasil. 



No dia seguinte, mais Chicago do alto. Fomos à Sears Tower - hoje chamada de Willis Tower, mas o nome não pegou - ver se era verdade que dava para ver quatro estados de lá de cima. O dia estava lindo, claro, e a visão foi estonteante - não literalmente, para minha alegria. O mais legal foi tirar foto na caixa de vidro que "sai" do prédio, e você fica flutuando a mais de cem andares de altura. As pernas tremem a princípio, depois não dá mais vontade de sair. Mas tinha que dar espaço para os demais turistas, fazer o quê, quem ficava mais de um minuto lá corria o risco de apanhar. Foi lindo ver a cidade do alto, nas quatro direções e os quatro estados... Bem, a gente sabia que de um lado fica Indiana, do outro Michigan, mais pra frente Wisconsin e Illinois era onde a gente estava, oras. Mas valeu - e como valeu - o passeio.



Ainda fomos a pé para a Buckingham Fountain, uma fonte inspirada no palácio de Versailles, mas, claro, gigantesca, com um jato d'água que acertava avião, com certeza. Mais uma caminhada e voltamos para o Millenium Park, onde ficam duas maravilhas de Chicago: a Crown Fountain, com rostos projetados como se estivessem espirrando água pela boca, e The Bean, o feijão, para mim uma das obras mais incríveis que uma cidade poderia ter. Fico imaginando uma igual no Ibirapuera ou no Villa-Lobos. Mais uma vez nos divertimos como numa casa de espelhos. Foram as duas exceções da viagem, já que tínhamos ido lá também na primeira vez.



Como já era quase hora de ir embora, dirigimos para o norte da cidade, em direção ao Lincoln Park, que também tinha ficado de fora da primeira vez. De novo, não deu para ver direito - tem até um zoológico lá dentro, dizem que é o Central Park de Chicago (a inveja mata). No entanto, a região do parque - onde nos perdemos tentando achar um Starbucks para um café pré-volta - me conquistou. Como o Roberto diz, estou sempre procurando a Vila Pompeia e a Vila Madalena nas cidades aonde vamos - aquela parte da cidade meio boêmia, com pessoal descolado, cheio de lojinhas e restaurantes de dono, uma coisa cada vez mais rara aqui em cima, só tem franquia e rede, argh! Em Washington foi Georgetown, em NY,o Village, até aqui em Birmingham é assim, só em Chicago eu não tinha encontrado da primeira vez. Talvez por isso eu tenha achado que a cidade não tinha alma.

Pois encontrei a alma de Chicago. Diferentemente da Downtown, linda, mas um tanto gélida - em todos os sentidos -, em Lincoln Park e Wrigleyville a alma da cidade estava na simpatia das moças do Starbucks - tão diferentes das colegas brasileiras -, do policial e da moradora desbocada batendo papo no café, dos prédios de tijolinho meio caídos, mas com personalidade... Pena que já eram quase cinco da tarde, e ainda tínhamos quatro horas de estrada pela frente.

Assim, deixamos Chicago pela segunda vez. Não teria sido justa com a cidade - nem comigo - voltar para o Brasil com a sensação de ter faltado alguma coisa. Que bom seguir os instintos e tirar a cisma. Valeu, valeu, valeu. Tanto que, ao entrar na freeway, eu já estava planejando uma terceira chance à Windy City. Se der tempo, quem sabe.

Agora estamos em busca do outono. Pelas fotos e relatos, é a estação do ano mais linda, a das cores, como dizem. Até na previsão do tempo - eles adoram previsão do tempo e eu também já viciei - tem o "mapa das cores", com indicação de onde as árvores já começaram a ficar amarelas, vermelhas, laranja, antes de cair tudo e chegar o inverno inclemente. Aqui mesmo perto de casa já está um espetáculo, imagino mais para o norte, que tem túneis de árvores. Se São Pedro colaborar - o outono aqui é imprevisível - vamos rumo ao Ártico na semana que vem (mas sem sair de Michigan, veja bem). Depois eu conto.

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